sábado, 31 de outubro de 2009

Os guineenses e a Língua Portuguesa

Portugal não foi competente na difusão da sua língua na Guiné. Conheço mal o processo de colonização desta antiga província ultramarina, como não conheço os principais factores que levaram ao evidente fracasso. Constato-o, apenas.

Para além da Guiné, conheço Moçambique. Quando falo dos países, quero esclarecer que estive, basicamente, as suas capitais. Em Maputo, onde permaneci três semanas, foi raro encontrar dois moçambicanos que não comunicassem em português. Em Bissau, pelo contrário, não me lembro de deparar com dois guineenses que dialogassem na nossa língua.

Mais grave, há guineenses a viver na capital com quem é impossível estabelecer uma conversação em português. E não falo de pessoas pertencentes a uma faixa etária idosa, mais afastada do ensino, falo de gente nova, nascida após a independência e que já teve uma escolaridade equivalente ao nosso 11º Ano, onde o português é ensinado desde o início.

O calor abafado que se tem sentido, empurra-me para o ar condicionado do quarto, de onde apenas saio para trabalhar e comer. Os filmes, o computador e as leituras, têm-me ajudado a vencer as horas com relativa facilidade. Por força das circunstâncias, tenho tido oportunidade de conhecer as empregadas que fazem a limpeza no 2º andar, onde passei a primeira semana. A Manuela, mulher determinada, grande, bem negra, lábios grossos sempre risonhos, olhos escuros e brilhantes, começou a falar mais comigo desde que lhe dei 1000 francos para me passar uma camisa e me arranjar duas almofadas suplementares. Percebe razoavelmente o português se o interlocutor ajudar, falando devagar e com gestos expressivos. Mas fala muito mal. Não resisti e perguntei-lhe porque raio os guineenses falavam tão mal a sua língua oficial. Esperta, com opinião formada sobre estas coisas, sem hesitar e à sua maneira disse-me que os professores também não conhecem bem a língua. E se alguns se preocupam em corrigir os erros dos alunos, naturalmente de acordo com as suas capacidades, a esmagadora maioria não o faz por inércia e, ou, falta de competências.

Sábado é o dia de folga da Manuela e a Fatu ocupou o seu lugar. Consegui perceber que é a «governanta», e que a Manuela não estava… e pouco mais. Ainda lhe perguntei se era natural da Guiné-Bissau porque há alguns imigrantes da Guiné Conacri e do Senegal. Não senhor, nada e criada em Bissau, a Fatu, muito mais austera na distribuição de sorrisos, mas tão grande, negra e de lábios tão grossos como a Manuela, não só não fala como não percebe o português, a língua em que teve de escrever – não sei se falar – durante pelo menos 11 anos da sua vida, e ainda não passou os 30.

É claro que a Manuela tem razão, os professores não sabem, logo, não podem ensinar. Mas o principal problema foi o investimento - ou a falta dele - dos portugueses enquanto por cá andaram. Tenho a certeza absoluta de que é impossível encontrarmos uma Fatu em Maputo e, mesmo sem conhecer de terreno pisado a situação angolana, dificilmente encontraremos um caso assim em Luanda. Talvez a geografia e o clima guineenses tenham afastado mais os portugueses; talvez a diversidade étnica num território tão diminuto, tenha igualmente contribuído para a dificuldade de penetração da língua portuguesa. Não sei. Talvez.

Pura especulação, eu sei, mas sendo conhecidas as dificuldades que o PAIGC criou às tropas portuguesas, nada comparáveis à situação vivida em Moçambique e, particularmente, em Angola, até que ponto a deficiente difusão do português, não teve peso nessa maior precariedade da soberania Portuguesa no território, levando mais facilmente as populações a juntarem-se aos guerrilheiros nacionalistas? E já agora, até que ponto a falta desse fio condutor, que é uma língua comum numa realidade multiétnica como a guineense, não contribuiu e continua a contribuir, para a instabilidade política e social que este país conhece desde a sua independência?

Não, a este nível não fizemos um bom trabalho na Guiné!

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Crianças de Quinhamel



Crianças de Quinhamel - uma povoação que dista cerca de 30 Km de Bissau.
Sem ponta de demagogia vos digo que a sua alegria chega a ser comovente.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Guiné - Chegada

  Estou recostado na cama do quarto 203 do Hotel Ancar, Bissau. Como habitualmente, cheguei ao aeroporto cerca das 2 da manhã. Como habitualmente, aquele calor húmido apossou-se de mim mal desci as escadas do avião, tocou-me os ossos e, passados curtos minutos, já transpirava por todos os poros. Como novidade, duas senhoras anafadas de bata branca e máscara correctamente aplicada nas vias aéreas, esperavam os passageiros. Tinham uma folha A4 cheia de perguntas para entregar a cada um deles. Se teve febre? se tossiu? em que voo chegou? qual o seu lugar no avião? etc., etc., etc. Um pouco mais à frente, um senhor uniformizado entregava um outro impresso, este cartonado, para responderemos às perguntas a que já respondemos no habitual impresso que é distribuído ainda no ar, pelo pessoal de cabina. Basicamente, quem é você? e o que vem fazer? Depois, foi preencher tudo aquilo em pé, na sala das chegadas, com o suor a pingar, apesar de a temperatura em Bissau, segundo o comandante, se situar nos 26º àquela hora.
Cumpridos os formalismos, foi o encontro com os colegas que simpaticamente nos esperavam e o nervoso miudinho de ver o tapete de borracha a rodar a rodar, e a mala sem aparecer. A roupa, os medicamentos... Meu Deus… Não! Tudo terminou bem. Em todas as viagens que faço, a minha mala é quase sempre das últimas a chegar, talvez para que alguém teste a solidez dos meus frágeis nervos, mas surge sempre, tem surgido.

A caminho do hotel, o escuro da noite e a chuva. Tem chovido muito. O escuro é habitual - como a chuva nesta época do ano - porque a iluminação pública pauta pela raridade e intermitência.

O Ancar é, afinal, um edifício antigo, que há poucos meses foi inaugurado como hotel. Quando me diziam que o hotel era novo não me mentiam, mas também não me contavam toda a verdade. Pois. O tempo passou e fez das suas. O segurança, que também é o recepcionista - ainda não conheço o seu nome -, esperava-nos estirado no hall de entrada – no chão, pois claro, à frente dos nossos olhos. Sabia que havia clientes para entrar e ali dormia, sacrificando os ossos, mas revelando uma elevada consciência profissional, porque, certamente, se fosse para outro local dormir teria mais dificuldade em acordar quando os clientes chegassem. Digo eu.

O quarto é pequeno, mas simpático. A casa de banho é igualmente pequena, mas sofrível. As louças são dos anos sessenta, a banheira forrada a azulejo branco e as tubagens da água à mostra. Bom, todo o hotel está equipado com aparelhos de ar condicionado novos e não falta a electricidade. Para mim, é isso que verdadeiramente conta.

Dar descanso ao corpo, sono pesado, recuperador, mas por curtas horas, e o inevitável acordar com o barulho próprio da rua, uma das mais movimentadas da cidade. Neste hotel é desconhecido o conceito de isolamento acústico. Não se pode ter tudo. O barulho começa cedo, o mercado não está longe. Falarei dele.

De manhã, através do vidro que não é duplo, vi a chuva a cair, muitas poças de água e lama nas bermas das estradas; campos alagados, verde em baixo, cinzento em cima. Não há sol, mas está calor, muito. O negro do alcatrão está ausente, ou porque não existe, ou porque está encoberto pela lama avermelhada. Há coisas que não mudam: os passeios e as estradas esburacadas e os abutres – as aves mesmo - continuam nos ares e nas ruas da cidade. Aqui são considerados os cantoneiros de limpeza, chamam-lhe almeidas por isso, já que ajudam no processo de recolha e reciclagem de algum lixo.

O telefone toca. É o meu colega. Exige companhia para o pequeno-almoço.

sábado, 24 de outubro de 2009

Guiné

Já me cheira a Guiné. Amanhã parto para este país em viagem de trabalho.

Darei notícias.

Três Cantos



A sala do Campo Pequeno estava à pinha e abafada, gerando isso um ambiente algo desconfortável; o som não era o exemplo acabado da perfeição, justificando-se os protestos que a espaços surgiram bem audíveis das filas mais altas; por vezes, a duas e a três vozes, a coisa não funcionou assim tão bem no palco. Não obstante, foi uma noite de «canto livre» à moda antiga; verdadeiro revivalismo musical revolucionário. E quando assim é, que interessam as coisas menos boas? Ninguém lhes liga quando estamos expectantes e a torcer por três monstros da cena musical portuguesa do pós 25 de Abril: José Mário Branco, Sérgio Godinho e Fausto.

Como seria de esperar, na escolha do reportório não avançaram pelo caminho da facilidade, optando por incluir um tema inédito e alguns pouco conhecidos, particularmente na fase inicial, quando estiveram individualmente em palco. Obviamente, tinham matéria-prima em quantidade e qualidade para transformarem o espectáculo num momento arrebatadoramente popular, e facilmente puxar para si todos aqueles milhares de pessoas. Mas não quiseram, recusaram o facilitismo e, no entanto, conseguiram-no plenamente.

Mesmo assim houve tempo para os grandes hinos, criações de cada um dos três artistas presentes: Foi Como Um Sonho Acabado, A Barca dos Amantes, Rosalinda, Ser Solidário, Primeiro Dia, Casimiro, Quadras Populares, etc. etc. etc. Foram mais de duas horas vividas com grande intensidade, sendo que em alguns momentos, a emoção tocou e contagiou grande parte daquela massa humana que, para ali estar, necessitou de se precaver, adquirindo o ingresso com algum tempo de antecedência. Aliás, o espectáculo a que assisti não era para ter acontecido. Falta de confiança, talvez, porque inicialmente estava previsto apenas um em Lisboa e outro no Porto. No entanto, a procura de bilhetes rapidamente levou a organização a convencer os artistas a realizarem mais um concerto suplementar, e estes, felizmente, cederam.

Na próxima semana, vão estar no Coliseu do Porto para mais duas apresentações. Das quatro sairá um DVD que, seguramente, está destinado ao sucesso, como o foi o concerto a que pude assistir. Cada um daqueles três senhores bem o merece. Eles fazem parte não só do nosso presente, continuando activos a contribuir para a grandeza da música, mas também porque já têm obra produzida que os catapulta para o patamar destinado ao património cultural imaterial recente, tendo, por isso, lugar cativo no canto emotivo da memória de alguns milhões de portugueses.

PS: Como podem ver, colo a este post a primeira fotografia deste blogue. Urra! Estamos de parabéns. Foi uma das minhas filhas que se encarregou de o fazer. Talvez eu tenha aprendido. Veremos.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

A imagem e o talento

Nestes tempos em que a imagem vale mais do que mil talentos, há pessoas que por muito que façam, dificilmente verão reconhecidos os méritos. Assaltam-me a memória uma série de nomes que poderíamos encaixar neste vasto naipe, mas queria falar de um: Sebastião Antunes. Assim de repente, é um nome comum que não dirá muito à esmagadora maioria dos portugueses, e não é de estranhar, apesar de ser um honesto compositor, autor e intérprete musical há cerca de 20 anos. Conheci-o no princípio dos anos 90, no Cacém, onde ambos morávamos; ele o artista, eu o espectador e admirador. Integrava então um projecto chamado Peace Makers, que chegou a ter alguma repercussão, particularmente com um tema intitulado Caixa de Música. Bandolins, violinos, gaitas-de-foles, flautas, letras sempre com sentido e terminologias populares, assim como as músicas, melodiosas ou ritmadas, mas com sonoridades bem ancoradas naquilo que é a essência das nossas origens culturais, que em tempos remotos nos chegaram do Norte da Europa.
Pouco depois nascia um outro projecto, que teria uma maior projecção, os Quadrilha. Fizeram cinco álbuns, mas falava-se deles apenas aquando do lançamento das novas criações. Passavam então uma ou outra música numa ou noutra estação de rádio, quase sempre na Antena 1, e pouco mais. Por vezes iam à televisão, quase sempre àqueles programas de fim de tarde, onde abundam os playbacks - mas quem pode desperdiçar uma ida à televisão? essa majestade que tudo devora. Sebastião Antunes tem feito uma carreira digna, mas discreta, discreta de mais face ao que merece. Ele é o comandante desta Quadrilha, o guia da banda, o seu principal municiador de músicas, letras e a voz principal. Foi fazendo outras experiências esporádicas com outros músicos, outras sensibilidades, sem nunca se afastar das origens.
Esta segunda-feira, dia 19, foi posto à venda o seu primeiro disco a solo; «Cá Dentro» é o seu título. São doze temas, nove dos quais originais, onde está presente o cunho que distingue este cante-autor: as sonoridades celtas, com reflexos evidentes nas manifestações culturais mais arreigadas nas gentes de Trás-os-Montes, Minho, Galiza, entre muitas outras regiões e países puxados a Norte.
Ainda que, resignando-nos aos ventos que sopram e ditam as preferências do consumo imediato, do usar rápido e deitar fora igualmente rápido, para comprarmos mais; talvez vencidos, mas nunca convencidos de que a imagem vale mais do que mil talentos, ainda assim, vale bem a pena ouvirmos este «Cá Dentro» e, sempre, Sebastião Antunes. Primeiro porque é muito bom, e esta razão bastaria, depois, por uma questão de militância pelas coisas autênticas que resistem. Ao ouvi-lo até parece que prevaricamos, porque damos um safanão a essa tendência pós moderna de tratar a cultura como coisa real por fora visando apenas o lucro, mas sem substância real por dentro; chutamos para canto os produtos que não conseguem acrescentar coisa alguma a um futuro cultural matizado como desejamos, pelo contrário, engrossam o caudal que parece seguir irreprimível no caminho do unanimismo cultural. Para pobreza de todos nós.

Novo Governo

Bom, temos um Governo novo. Toma posse dia 26, 2ª feira.
De todos os nomes, o que mais me surpreendeu foi o de Alberto Martins. Não tanto pelo nome em si, mas pela pasta que lhe foi destinada. Via-o nos Assuntos Parlamentares talvez, tendo em conta as funções de líder da bancada parlamentar do PS ao longo de toda a anterior legislatura, mas não na Justiça.
É, contudo, um nome para mim inspirador. Não tanto pela sua carreira política nos últimos anos, mas pela coragem que teve em determinada altura da nossa História colectiva.

Num longínquo dia de 1969, aquando da cerimónia inaugural do edifício de Matemáticas da Universidade de Coimbra, na presença do presidente da República, o almirante Américo Tomás e do ministro da Educação, o Dr. José Hermano Saraiva, além dos altos representantes da Universidade, Alberto Martins, então presidente da Associação de Estudantes, aproveitando uma pausa ligeira na cerimónia, ergueu-se na plateia e tomou a palavra, identificando-se e pedindo autorização para falar em nome dos alunos. O velho marujo, engoliu em seco, disse que sim senhor, mas que primeiro falaria, penso que o ministro da Educação. No entanto, mal este acabou o discurso, o presidente da República levantou-se e saiu.

Nessa mesma noite todos os membros da Associação de Estudantes foram detidos pela PIDE/DGS, e este acontecimento foi o rastilho para a grave crise académica daquele ano, que se prolongou por largos meses. Foi o nosso Maio de 68 com um ano de atraso.

Gostaria que o novo ministro da Justiça usasse nas suas futuras funções, um pouco daquela ousadia que o caracterizou naquele dia histórico e que então o catapultou para um patamar destinado aos quase heróis. Custou-lhe caro esse acto de coragem. Foi expulso da Universidade e incorporado nas forças armadas, tendo ido combater para África. Só terminou o curso de Direito depois do 25 de Abril.

Se ele conseguir manter algum desse atrevimento enquanto ministro da Justiça, não lhe posso prometer um lugar de destaque como o que teve em 1969, mas seguramente, a sociedade portuguesa ficará em divida consigo. Portugal precisa de uma Justiça digna da democracia que somos há três décadas e meia. Este é o sector social onde o 25 de Abril menos se fez sentir, e isso reflecte-se no dia-a-dia de quem nele trabalha arduamente, e nos cidadãos que desejam que se faça Justiça.

sábado, 17 de outubro de 2009

Na rádio - Antena 1

Hoje de manhã, no regresso a casa do café e do jornal, ouvi alguém na rádio dizer qualquer coisa como:
«Bem e mal fundam-se nas rotinas.»

Fica claro que concordo. Se calhar todos concordamos, mas por ser tão evidente, a tendência é que o ignoremos. A nossa passividade relativamente ao mal é nociva ao bem. Todos o sabemos, mas...

Logo a seguir, a mesma pessoa - uma senhora -, que não tive tempo de perceber quem era, adiantou: «Os portugueses queixam-se muito, mas nunca protestam.»

Outra verdade verdadeira. Tudo nos serve de pretexto para adiar ou não fazer, mas raramente nos agitamos o suficiente para denunciar ou reparar o mal. O sofá, a televisão, ou outra miudeza qualquer, geram a inércia que desmotiva à participação. E quando não havia televisão ou mesmo sofá?
Ah, pois!… Havia uma miudeza qualquer, essa nunca faltou. Mas sempre foi assim. Faz parte do ADN nacional.
E sendo assim «Vão sem mim que eu vou lá ter.» Como cantam os Deolinda, naquele autêntico lado B do hino nacional, que dá pelo nome de Movimento Perpétuo Associativo. Recomendo.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Obama, o Nobel e a China

Foi há dias, eu sei, mas ainda dá que pensar.
Sempre achei que Obama seria uma pedrada no charco na sociedade americana e, logo, no mundo. Tão extraordinária seria a sua ascensão ao poder, que cheguei a apostar que ele não ganharia as eleições. Perdi. Mesmo assim, voltei a apostar que não chegaria a tomar posse, porque antes disso, um doido qualquer lhe daria um tiro. Bom, perdi de novo e até agora, no que respeita a tiros, estamos, felizmente, em branco. Mas não me enganei, contudo, no significado que teve para o mundo a sua eleição. Um negro, presidente dos EUA, continuava ao nível da ficção e, convenhamos, tal só foi possível no contexto de uma grave crise económica, e mesmo de crença, como o mundo não conhecia havia muito tempo.

Apesar de tudo, eu estava longe de o imaginar galardoado com o Nobel da Paz logo no primeiro ano de mandato. Outros presidentes americanos o foram, mas nunca numa fase tão prematura da sua gestão governativa. No entanto, a surpresa aumentou quando soube que a data limite para a entrada das candidaturas no Comité Nobel coincidiu com o 12º dia de mandato de Obama como presidente. Pouco podia ter feito, além de conhecer os cantos à Casa Branca.

Não conseguimos assim encaixar o Nobel da Paz deste ano nas razões pelas quais todos os anos é entregue: actos que se traduzem em contributos efectivos para a paz. Houve falta de tempo para que o premiado os pudesse cometer. Se quisermos, encontramos explicação apenas nas expectativas. É, portanto, um prémio pela esperança do que pode vir a ser feito e não pelo que se fez; um prémio que não premeia, mas responsabiliza, que devia comprometer o laureado com o mundo e com a paz.

Não obstante, a primeira medida de Obama após a atribuição do Nobel, não permite acalentar grandes esperanças de que ele se deixe levar por estas pressões de sinal positivo, porque anunciou que não receberia o Dalai Lama, gesto que os seus antecessores nunca ousaram cometer, fossem republicanos ou democratas, mais ou menos conservadores.

Lamentavelmente, Obama não parece pressionável por prémios, ainda que os mais reputados. Porém, a sua capacidade de resistir a pressões esbate-se quando ela, a pressão, chega da emergente, mas já bem real, potência mundial, actualmente titular de grande parte da dívida externa americana, a R. P. da China.
A real politique a funcionar em pleno, e ele, o presidente de todas as expectativas, como qualquer outro a curvar-se.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Os Vencedores das Autárquicas

E os vencedores são:

- O PS, porque conseguiu mais votos;
- O PDS, porque elegeu mais presidentes de câmara;
- A CDU, porque reconquistou três câmaras;
- O PP, porque nunca antes conseguira tantos mandatos;
- O Bloco, porque teve mais votos que em 2005
- Os outros também, só que não os conseguimos ouvir.

Bom, afinal está tudo bem.
Continuamos a ser um país de vencedores.
Viva Portugal!

domingo, 11 de outubro de 2009

Liedson, o vermelho e a Luz

Afinal, ver Liedson de vermelho a ser aplaudido por cinquenta mil em pleno Estádio da Luz, nem foi mau de todo. Ajudou a selecção a manter acesa a chama de poder vir a estar presente no Campeonato do Mundo na África do Sul em 2010.
Com o grupo que nos tocou, tínhamos, à partida, assinado o passaporte. Todos o diziam e eu não fugia à regra. Contudo, as coisas não correram bem. Há que dizê-lo: a selecção jogou mal.
É verdade que no jogo contra a Dinamarca em terras lusas, quiçá o melhor dos «tugas» ao longo de toda esta fase, por erros pontuais que se tornaram fatais, acabámos por perder os três preciosos pontitos. Talvez possamos encontrar neste desaire a génese do descontrolo que se instalou na equipa nacional, gerando uma certa crença da impossibilidade de vir a jogar melhor, acabando assim por passar a mensagem que dificilmente marcaria presença no Mundial.
A verdade é que a Dinamarca veio a revelar-se uma equipa que, sem possuir grandes vedetas como as têm Portugal e Suécia, é muito combativa, compacta e eficaz. Por isso, a uma jornada do fim desta fase, não perderam um único jogo e têm cinco pontos a mais do que o segundo classificado, a partir de ontem Portugal.
É verdade que vimos a coisa mal parada, mas também porque não nos demos ao trabalho de analisar o calendário, particularmente o das duas selecções que passaram a ser as concorrentes directas de Portugal na luta pelo segundo lugar do grupo, já que o primeiro, desde cedo a Dinamarca o exigiu para si. Refiro-me à Suécia e à Hungria, que tinham os jogos com a Dinamarca guardados para as duas últimas jornadas. Enquanto Portugal as cumpriria em casa contra, precisamente, Hungria e Malta, sendo esta reconhecidamente a equipa mais fraca do grupo.
Dos dez grupos formados nesta fase, apenas os primeiros classificados têm acesso directo ao Mundial, enquanto os segundos lutarão entre si e só cinco terão direito a livre-trânsito. Mas até aqui as coisas não parecem muito complicadas para a selecção portuguesa, isto porque, apesar da fraca prestação nesta fase qualificativa, será cabeça de série, fazendo parelha com as outras mais cotadas que não almejaram o primeiro lugar do respectivo grupo. Assim nos livramos da França e a Rússia, que no plano teórico nos poderiam criar mais dificuldades. Falamos de futebol e isto vale o que vale e, por vezes, dos teoricamente mais fracos surgem grandes surpresas. Mas, objectivamente, de falta de sorte não nos podemos queixar, e «Liedson resolve.» Sabemos que não é sempre assim, mas, coincidência, foi quando este agora cidadão português vestiu pela primeira vez a camisola das quinas, que a equipa começou a melhorar os seus níveis de confiança. Factor psicológico? Talvez, mas resultou, pelo menos até ver.
Porque não tem isso resultado no actual Sporting? Bom, não sei, mas talvez porque, santos da casa não fazem milagres. Nem Liedson.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Esclarecimento à navegação

Ainda um dia vou aprender a transportar para aqui fotografias e vídeos, juro! Fotografias magníficas, vídeos estupendos e então terei um blogue muito mais… multimédia?... Preciso também de saber o que fazer a estas bandas laterais verdes, que até agora me parecem supranumerárias, além de feias. Quando o conseguir, o meu blogue vai parecer um blogue normalizado, no fundo o sonho de qualquer um. Todos lutamos por um lugar no reino da normalização. Não é? Enquanto isso não suceder, este é apenas o meu blogue, um blogue limpinho, arranjadinho quanto baste, honesto, sim concordo, trabalhador, mais ou menos claro, o que, vendo bem e sendo verdade, nem é mau de todo. Acho eu.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Amália, a voz de todos nós

Não queria que este blogue se especializasse em necrologia, mas tenho de escrever algo sobre esta grande portuguesa.

Completam-se hoje 10 anos que o coração lhe obedeceu: «...pára meu coração, deixa de bater que eu não te acompanho mais.»
Mas foi um outro grande, precocemente desaparecido, que melhor a definiu face ao povo a que ambos pertenciam, refiro-me a António Variações: «Todos nós temos Amália na voz e temos na sua voz a voz de todos nós.» Dificilmente alguém pode encontrar forma de resumir melhor esta relação que sempre existiu entre Amália e os portugueses e, quanto a isso, fico-me por aqui.
Façam-lhe justiça continuando a ouvi-la. Ela iria gostar de saber. Numa das suas últimas entrevistas perguntavam-lhe se tinha medo da morte e ela respondeu, vou citar de cor: «Não receio a morte, receio que não chorem a minha morte.» Nada mais simples, humilde, genuíno. Ouvi-la é, de alguma forma, continuar a estar com ela, tê-la entre nós.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

A República não é de ninguém

A menina República completa a bonita idade de 99 anos.
Nessa manhã de 5 de Outubro de 1910, no Rossio, depois de trinta e tal horas de combates, um general monárquico entregava o poder a Machado Santos, o chefe operacional dos revoltosos, dizendo-lhe que nada tinha para entregar. Assim estava o regime defunto.
A família real fugiu para Inglaterra, a monarquia caiu e os republicanos começaram a aparecer aos milhares. Não se sabia que havia tantos, e o seu número não parou de crescer. Oportunistas? Claro, muitos! Já havia disso e em grande quantidade. Machado Santos no jornal que fundou, pouco depois, alcunhou-os de «adesivos». E que melhor alcunha lhes poderia arranjar.
Seguiram-se 16 anos de tumulto, depois 48 de paz podre e, há 35, um regime em que existe a presunção de que o povo é quem mais ordena - apenas porque pode votar.
Caiu o rei, surgiu o presidente da República. Desapareceu a sucessão dinástica, surgiram outras sucessões e está longe de ser inédita a transmissão do poder de pai para filho, particularmente nas autarquias. Mas estas sucessões são evidentes, mais perigosas e até perniciosas, são as outras, aquelas em que, com a imagem de jogo limpo, alguém aparece, nomeado sabe-se lá por quem e com que interesses, para que o povo sufrague o seu nome. Depois a televisão faz o resto: o cavalheiro é eleito e todos pensamos que o voto é livre e o povo é quem mais ordena. Jogos de espelhos, ilusão, chame-se o que se quiser, mas de transparente pouco tem. Ninguém pega na mão do povo para lhe indicar qual a quadrícula onde pôr a cruzinha, mas manipulam-lhe o pensamento. Ninguém o ignora, nem o povo, apenas não se importa. Por enquanto.
Apesar de tudo, reconhecidos os defeitos e virtudes, sou republicano. Ainda que seja sensível ao argumento da figura real como agregadora da nação, coisa que um presidente, porque é eleito e discute eleições, muito dificilmente conseguirá. Concordo, contudo, que numa sociedade aberta como a nossa, com os meios de comunicação social sempre a tentar espreitar o interior das instituições, descobrindo-lhes fragilidades, abrindo-lhes brechas, a família real não consegue manter a aura que durante séculos ajudou a criar a imagem impoluta e de centralidade, capaz de agregar.
Não, definitivamente, a monarquia não é deste tempo. Agrada-me mais a ideia de que, em teoria e com todos os riscos, qualquer português possa assumir a mais alta magistratura da nação. Daqui não saio.
Viva a República.

domingo, 4 de outubro de 2009

Mercedes Sosa

Mercedes Sosa morreu. Viva Mercedes Sosa. Quem canta assim nunca morre.
Ainda não tenho conta aberta no Youtube, e não posso facilitar o caminho, mas recomendo que vão até lá e ouçam Alfonsina y el Mar. Para quem não conhece, basta esta jóia para que se fique fã.

Gracias Mercedes, e gracias a la vida que no-la deu.

Eu sabia

Fiquei feliz com a atribuição das Olimpíadas à, também nossa, Rio de Janeiro. O Comité Olímpico Internacional seguiu as pegadas da FIFA. O próximo campeonato do mundo de futebol terá lugar em 2010 na África do Sul - pela primeira vez no continente negro -, uma decisão não isenta de risco, já se vê, mas penso que calculado. Em 2014, este evento tão mediático decorrerá exactamente no Brasil – pela segunda vez, depois da primeira e longínqua experiência de 1950.
O COI não quis ficar atrás, depois da vergonha que foi não ter concedido a organização dos jogos do centenário à cidade berço, em pura cedência ao poderio económico americano, no caso em favor de Atlanta. Depois percebeu a injustiça e tentou arrepiar caminho, favorecendo Atenas com a organização dos jogos de 2000. Tardio remedeio, a falta já estava irremediavelmente registada.
Agora pareceu não ter querido repetir a asneira e vai daí, seguiu os homens da bola e inovou ao levar os Jogos Olímpicos pela primeira vez para a América do Sul. O Brasil terá o Mundial de Futebol em 2014 e os Jogos Olímpicos em 2016. Dois anos de um ininterrupto Carnaval, crê-se.
Para alegria dos muitos milhões de sul-americanos e falantes da língua portuguesa Rio de Janeiro será a sede das Olimpíadas. No que nos diz respeito, pela primeira vez, a frase de abertura de acontecimento com significado tão tocante para toda a Humanidade, será proferida no nosso idioma.
Foi comovente ver a alegria daquele povo a saltar e a dançar com a notícia. Mas é um grande desafio que os brasileiros vão ter de vencer. É uma tarefa hercúlea e o mais grave e delicado nem será a construção das infra-estruturas, mas a da segurança, tendo em conta a situação periclitante em que vivem os cariocas há muitos anos neste particular. Mas estou certo que as autoridades responsáveis não ignoram este problema e que a seu tempo o debelarão.
De há muitos anos que não perco uma cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos – desde Moscovo 1980, que me lembre - e nunca deixo de me comover. E questionando-me sobre este reflexo, concluo que tal se deve não só ao simbolismo do acontecimento – que faz um apelo à paz e ao entendimento universais -, mas também pelo orgulho, alegria e entrega dos povos que os acolhem. É sempre magnífico, independentemente da exuberância do espectáculo em si.
Mas eu sei que em 2016 vou comover-me muito mais.
Lá estaremos

sábado, 3 de outubro de 2009

Editorial

A única coisa que neste editorial se promete é que nunca prometerei coisa alguma. Isto, obviamente, no que respeita a temas, tendências e estéticas. Escreverei sobre tudo, sem aviso prévio e calendário político ou outros. Farei um esforço para cumprir honestamente este desiderato. Mas se não o conseguir, tal não deve ser entendido como havendo intenções sub-reptícias, mas apenas a mera distracção ou falta de inspiração ou talento. Falarei de cultura, de política, do Homem, ou seja, de tudo, mas apenas quando me apetecer.
Não prometo que não fale dos meus livros, e não peço desculpa por isso. Porque se o fizer, nunca será no sentido de os promover, mas apenas por mera e perdoável vaidade, essa fragilidade tão humana. Não é que os livros sejam como filhos, não cairei nessa imagem estafada, até porque nunca concordei com ela, mas apenas porque gosto de falar das coisas que de mim saem e que, não obstante o desgastante processo de produção e mais ainda de revisão, continuo a gostar delas. Não é cegueira, é amor. É assim. Ou melhor, assim será.
Falarei, claro de outros livros, com a liberdade a que tenho direito, mas sempre com a responsabilidade que tenho por dever de cidadania e de respeito para com quem faz desta actividade a sua profissão e a ama, ou apenas pelo prazer de escrever, o que não deprecia o amor pela causa.
Falarei do mar, pois claro. A-de-Mar teria de falar de mar. Não só como ponte entre culturas, mas como recreio, como fonte de vida e como símbolo na História de Portugal. Espero ter razões para falar de viagens; é a evidência de que as fiz. As impressões, os percursos, os meios, as gentes, sempre as gentes. O Homem como medida de todas as coisas e todas as coisas como instrumento de felicidade do Homem, mas com vistas largas. Não a felicidade momentânea do indivíduo em prejuízo do Homem e do futuro. Vistas largas também é isso, e cá estaremos com esse propósito. E aqui entra a política. Política é tudo, tudo é política. E também ela não nos escapará. Cá estaremos para opinar, denunciar, propor sem complexos ou subterfúgios. Se errar a pontaria, paciência, cá estarei para dar o braço a torcer. Mas não torçam muito, as artroses não o aconselham.
Sejam felizes com a felicidade dos outros.
Cá estaremos.