domingo, 29 de novembro de 2009

Bafatá e o Geba

Conta a lenda que um antigo chefe fula foi o primeiro homem a estabelecer-se ali. Chamou ao lugar Bafató, que na sua língua significa encontro de rios. De facto, um rio mais pequeno entronca no Rio Geba, o maior da Guiné, que se junta ao mar uns quilómetros adiante. O tempo transformou Bafató em Bafatá que, por estrada, dista cerca de 120 quilómetros de Bissau para o interior.

Nos últimos anos, o centro da cidade deslocou-se para uma zona mais alta, junto do cruzamento da estrada para Bissau. Quem venha da capital e aí vire à esquerda, entra numa avenida larga e esburacada, que desce até ao rio. De um lado e outro da artéria, podem ver-se os edifícios mais emblemáticos da cidade, e ruas perpendiculares que se estendem, dando corpo à cidade histórica. A foto foi tirada a dois passos do rio e de costas voltadas para ele. Mostra o que resta da principal praça da cidade colonial, onde termina a dita avenida.



Os dois amigos interromperam a pescaria para posar



Este é o Júnior.
Prometeu-me que quando fosse «homem grande», iria recuperar os baloiços existentes na praça,
baloiços que ele não teve direito a usar porque deles restam apenas os escombros.



Penitencio-me por não recordar o nome deste rapaz, mas a seu lado jazem os ferros do que
foi um banco de jardim. Atrás, os restos dos pilares da estrutura que delimitava a praça.
O Júnior espreita.




Séco e Ussumane


Complexo de lazer com piscinas, restaurante e salão de chá, situado mesmo ao lado da praça e
sobranceiro ao rio. Numa inscrição na pedra, ao fundo da piscina, pode
ler-se o ano de construção, 1962.



Os pensamentos ou os  fantasmas dos colonos mais endinheirados, ainda visitam o
restaurante e o salão de chá - mas não os vêem assim.


A igreja estava fechada - só abriria na manhã de domingo à hora da missa




Chegou a hora do almoço e as possibilidades de escolha escasseavam. «Vão à dona Célia!», recomendaram-nos. É a senhora que está encostada à porta. O seu estabelecimento é o Ponto de Encontro. Com o seu marido, são os únicos portugueses residentes em Bafatá. O senhor Dinis cumpriu o serviço militar na Guiné entre 1963/65 e por lá ficou. Um camponês das Caldas da Rainha, cheio de irmãos e de fome, que tinha a perder? Ficou na Guiné e, dois anos depois, já era dono de uma escola de condução, que ainda mantém. Em 1972 viajou à terra natal para casar com a sua madrinha de guerra e regressar. Porém, acabou por se perder de amores por Célia, uma jovem de 18 anos, que trocou o lar paterno pela Guiné. A guerra estava no auge e invadia as próprias cidades. Os abrigos secretos em casa eram obrigatórios na iminência de um ataque. Chegou a independência e eles ficaram. Regressar à aldeia com uma mão atrás e outra à frente, nunca lhes ocorreu. Passaram-se trinta e cinco anos e vivem pobremente. «Isto está cada vez pior, as pessoas não têm dinheiro». A pergunta era inevitável: se soubesse o que sabe hoje, teria ficado? «Nem pensar!» respondeu sem hesitar o senhor Dinis, acrescentando cabisbaixo e com um brilhozinho nos olhos: «Mas agora é tarde». A galinha à cafreal estava boa.


Três irmãos, filhos de um professor vizinho do Ponto de Encontro. À esquerda, a Célia, em
homenagem à portuguesa; à direita, o José, em homenagem ao português - José Dinis -;
no meio a mais nova, cujo nome se me varreu.


 A Célia e o sorriso


 Digam lá que a miúda não tem pinta...



Aqui, a fingir-se algo acanhada...


... para agora surgir imperial, e de corpo inteiro


A Célia de 4 anos, com o irmão Eduardo


A imaginação ao poder. Quando não há, inventa-se! Foi o que fez o Zé. Uma grade de refrigerantes, vários arames ajeitados a preceito, um pequeno limão verde bem redondinho e eis um engenhoso jogo de matraquilhos.




A natureza pujante, bruta mesmo, prevalece sobre todas as coisas, homens incluidos. É a grande
força de África e paradoxalmente, o elemento que mais condiciona o seu desenvolvimento.



E em Bafatá, subitamente, uma camioneta para... Lisboa


domingo, 22 de novembro de 2009

Quinhamel e Mar Azul

De Bissau a Quinhamel, a distância é curta e a estrada boa. Na rotunda do aeroporto vira-se à esquerda e cerca de 40 minutos depois, sem grandes velocidades, estamos lá. Cuidado com as galinhas, cabras e porcos – bichos pequenos estes… - que andam em liberdade no processo de autosustentação, e atravessam sem pedir licença.

Já em Quinhamel, mas antes das ostras do senhor Aníbal, passámos por um muito jovem admirador de Obama. Por estas bandas, os EUA passaram também a ser definidos como «Estados Unidos de Obama».

 
O local onde o pecado não existe ou está condenado ao perdão - até o da gula


Enquanto as ostras abriam e o peixe assava, saimos do restaurante para dar um passeio, mas logo um bando de «pardais» nos assaltou - talvez apareçam mais à frente.


Fomos andando, cedendo ao apelo da água, mas sempre em boa companhia


O depósito amarelo contém um líquido aqui muito apreciado: vinho de palma. Juro que não bebi, e nem foi pelo preço, 250 francos o litro, mas pela cor - era demasiado leitoso para os meus olhos.


Chegava a carreira das ilhas num dos barcos tradicionais, semelhante aos usados desde há milhares de anos nestas mesmas águas.


O peixe estava na mesa, devíamos fazer-lhe justiça.
Cerveja? Pois... O vinho tem preço alto e qualidade baixa.

  
Abandonámos Quinhamel e o alcatrão. A ideia de África, com paisagem, cheiro, cor...
Fomos ao encontro do Mar Azul

 
«Está encerrado. Abre em Dezembro» disse-nos o segurança. Então, os chineses compraram isto ou não? Desconhecia. Para ele, o Mar Azul ainda era propriedade do antigo dono, um libanês. Simpaticamente deixou-nos entrar. Bem mereceu os mil francos.


Alguns dos apartamentos - inspirados na arquitectura tradicional



A zona do bar e esplanada com o braço de mar em frente



O mapa do Arquipélago dos Bijagós pintado na parede do bar, e uma piscina à espera de quem a cuide




Uma outra perspectiva do varandim da esplanada desocupada.
Depois, o regresso à capital, o único lugar da Guiné onde não apetece estar.


sábado, 21 de novembro de 2009

O tédio e o quarto de hotel…

Gosto de escrever com o computador apoiado nas pernas flectidas, recostado no lado esquerdo da cama. Sempre no lado esquerdo. Como preciso da luz do candeeiro da mesa-de-cabeceira e não disponho de uma ficha tripla, tenho de ligar o computador à tomada que está no lado oposto. Não há outra. Acontece que a entrada de corrente situa-se exactamente à esquerda do meu PC. Logo, o cabo tem de passar por cima de mim e detesto sentir aquele toque. Há dias em que detesto mais. Hoje de manhã, pôs-se-me a questão: optar pela direita da cama para escrever, alterando hábitos, ou ir comprar uma ficha tripla. Resolvi: vou comer ostras a Quinhamel.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Ainda e sempre os Bijagós

O pequeno aldeamento turístico de Rubane, o da «francesa», ocupa uma linha de costa não superior a 200 metros, sendo que a zona social – com bar, piscina e restaurante -, marca o centro do empreendimento. Para um e outro lado, estendem-se a dúzia e meia de cabanas, entre quartos e apartamentos.
Na «francesa» – como terá ela vindo aqui parar? - destaca-se um rosto amarelecido, pele engelhada e baça, marcas bem visíveis de um tempo agreste, mas também por via do muito fumo de tabaco que por ele perpassa. Magra e relativamente alta para o padrão português, só se exprime na língua materna e, tanto os empregados como os clientes, têm de sujeitar-se. Mas vale bem o sacrifício.



Este foi o palácio que me serviu para passar a noite. Não que dormisse bem, esteve até longe de ser uma boa noite de sono. A fauna local mais perturbadora, aqueles seres rastejantes e esvoaçantes, quase todos pretos, mas também de outras cores, pequenitos ou menos pequenitos, a que genericamente se chama insectos, fizeram questão de não permitir que eu dormisse mais do que uma horita, e ainda assim, só somando todos os minutos tresmalhados da intranquilidade nocturna.


 

Mas que importância tem isso quando nos levantamos às 7h30 de um domingo e, mal pomos os pés no chão para afastar as cortinas, como acto irreprímivel, entranha-se-nos na alma esta luz?


 

 Abrimos a porta, respiramos o ar que ainda veio da noite e somos recebidos desta forma?





Rodamos ligeiramente para a direita e... é isto





Em seguida para a esquerda e... é a luxúria do verde a roçar a areia da praia


Dois passos depois, entre duas palmeiras olhei em frente





Pisei a areia e apontei para o lado do restaurante, mas o melhor que consegui foi isto




Avancei uns metros, molheu os pés e vi Bubaque ao longe - como se isso tivesse alguma importância

Apesar da hora matutina a água estava inacreditavelmente quente. Fui levado a concluir que era tempo de dar descanso à máquina e de não poupar o físico.
Isso... mergulhei, mas perdi-me. Certamente, quem tecia as malhas do tempo enganou-se e trocou os fios das horas. Não tardou que me chamassem para a viagem de regresso a Bissau. Como é possivel? Já são quatro e meia? Eram!



... sim, mas tinha de ser. Talvez volte.




Tudo fiz para trazer o que os olhos viam, mas falhei o objectivo porque foi singelo o que consegui.




Ilhas e mais ilhas, água e mais água, verde e mais verde




O Arquipélago dos Bijagós ficou além, aonde o Sol se esconde sem filtros.

sábado, 14 de novembro de 2009

Cinema na cama

Nos últimos dias, quando o trabalho não apertava e não me apetecia fazer outra coisa, ficava recostado na cama com o computador ao lado, num plano ligeiramente superior, quase sempre sobre a mala, headfones nos ouvidos e vi, ou tentei ver, os seguintes filmes:



- Distrito 9 – Uma denúncia inteligente dos preconceitos face às diferenças físicas, culturais, religiosas, etc. Imaginem só: passa-se na África do Sul, o país do apartheid, mais precisamente em Joanesburgo, cidade marco dessa brutalidade, mas igualmente sinónimo da luta contra a segregação. Os diferentes começam por ser extraterrestres, depois... imaginativo e surpreendente.

- Ghost Town – uma história bem-disposta, que cruza o além com o aquém, as fraquezas humanas. Um homem morre inesperadamente e volta em espírito para tentar compensar das suas infidelidades a mulher que amava. Aproveitou-se para o efeito de um dentista – personagem representado, nem mais, pelo actor protagonista da série de boa memória, A Firma, que passou na 2, aos domingos à noite. Quiseram os argumentistas que este clínico tivesse contacto com a morte e que por isso ficasse em condições de estabelecer a ponte entre o mundo de cá e o outro. Atrás daquele primeiro homem-espírito, vêm mais e o dentista, após alguma resistência, vai cumprindo as tarefas que ficaram atravessadas na consciência de quem partiu abruptamente, concedendo-lhes a ansiada paz. Filme recheado de bom humor inglês sem, contudo, deixar de comover os espíritos mais sensíveis.





- Idade do Gelo 3 – Adormeci. A culpa não foi do filme, que mantém aquele ritmo frenético dos anteriores e que diverte muito, mas da noite mal dormida. A ele hei-de voltar.







- The Wall – não a magnífica longa-metragem feita a partir do disco dos Pink Floyd, mas a gravação do espectáculo levado a cabo em Berlim em 1990, na sequência da queda do muro – de que se comemoraram agora os 20 anos -, em que participaram inúmeras estrelas da música internacional. Roger Waters, o grande obreiro, nunca abdicando de intervir socialmente, quis brindar com este simbólico evento os berlinenses, aqueles que mais directamente sofreram com o muro odioso. Um eloquente documento.


- Ponto de Vista – filmado em Salamanca, na Plaza Mayor e em alguns outros recantos antigos da cidade, o que só por si justificava o visionamento. O espectador vai recebendo os diversos pontos de vista das pessoas que assistiam ao evento que está no centro da trama – uma realizadora na régie de uma cadeia de televisão, um guarda-costas, um turista, um terrorista, etc., etc.. O tronco principal vai sendo repetido sistematicamente, porque todos o presenciaram, porém, a história é constantemente enriquecida com os novos detalhes que vão chegando. Não tanto pelo tema abordado no filme - um atentado ao presidente dos EUA levado a cabo por fundamentalistas islâmicos -, mas pela forma original como foi engendrada a estrutura do argumento e pelos meios usados na sua realização, bem valeu o tempo dispendido.





- Star Trek – eu tentei, até me esforcei confesso, mas desisti – não há paciência.









- State of Play - uma história interessante sobre a sociedade da competitividade. A ameaça das aspirações políticas de um jovem congressista, as ligações encapotadas do poder económico ao poder político de topo, a luta pelo protagonismo nos media, a luta destes pelas audiências… o que fazer para sobreviver ou para singrar? E a amizade, essa fragilidade humana, onde fica? Sem deixar de ser um filme de acção, mexe em assuntos sérios que deviam estar mais na ordem do dia.





                                                        Vi mais uns quantos, mas ficam para a próxima.