quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

2010 e o pé direito


Entrar em 2010 com o pé direito sem fazer ondas

Crime made in Portugal



Na edição do último dia de 2009, o jornal diário i fez um balanço rápido do ano criminal em Portugal. A grande conclusão a tirar é de regozijo: também no crime temos muito que pedalar para chegarmos à linha da frente da grande criminalidade, senão vejamos a lista elaborada pelo periódico:


"Sonhos de Menino"
João, 45 anos, matou a filha em São Mamede de Infesta (Matosinhos). Em Maio, numa quinta-feira, pediu à ex-mulher para jantar com a criança de seis anos. Sentou-a ao colo e pôs-lhe o cinto do roupão à volta do pescoço. Beijou-a uma última vez e estrangulou-a. Depois preparou a mesa com dois pratos e pôs a tocar a música favorita da filha – “Sonhos de Menino”, de Tony Carreira. A seguir mandou um sms à ex-mulher: “A tua filha foi para o Céu.” Tentou suicidar-se duas vezes, mas está preso a aguardar julgamento.
Quando a bolha rebenta
Em Maio, três homens conseguiram a proeza de assaltar 720 pessoas ao mesmo tempo. Encapuzados e disfarçados com fardas iguais às do Corpo de Intervenção, interromperam um jantar na Quinta de São Salvador, em Oliveira do Douro (Gaia), e roubaram, de uma assentada, um milhão de euros destinados ao jogo da bolha. Eram 22h30 e o jantar ainda não tinha começado. Bastaram 15 minutos para que os assaltantes conseguissem recolher todo o dinheiro. Nenhum dos lesados apresentou queixa.
O pastor e a cenoura
Em Outubro, um casal violou um pastor de 56 anos na Beira Baixa. Com uma cenoura. Na origem do crime terá estado uma vingança, depois de uma insinuação de cariz sexual feita pelo pastor à mulher. O casal foi detido pela Polícia Judiciária de Coimbra, depois de uma investigação que durou cinco meses. Além de violarem o pastor, os dois roubaram-lhe o telemóvel, a roupa e a carteira e abandonaram--no de pés e mãos amarrados. Foram ouvidos no Tribunal de Castelo Branco e saíram em liberdade. Aguardam julgamento.
Ladrão entalado
Um romeno de 22 anos tentou assaltar um supermercado em Almancil (Loulé), em Novembro. Teve azar e acabou por ficar entalado, durante 11 horas, numa janela lateral do estabelecimento. Só foi solto quando o proprietário do supermercado chegou, pouco depois das sete da manhã. Entretanto, e para conseguir soltar-se, o romeno tinha tirado as calças. A GNR foi chamada, mas só os bombeiros de Loulé conseguiram desencarcerá-lo. O ladrão foi libertado e aguarda agora a conclusão da investigação.
O padre armado
O padre Fernando Guerra, de 74 anos, foi detido em Outubro depois de celebrar missa na aldeia de Covas do Barroso, em Boticas, por suspeita de posse ilegal e tráfico de armas. À chuva, os militares da GNR esperaram pelo fim da eucaristia das 7 horas de domingo. Aguardaram que os 40 fiéis saíssem e surpreenderem o padre na sacristia quando despia os paramentos e se preparava para seguir para a paróquia vizinha. O pároco ficou proibido de comprar e usar armas e obrigado a apresentar-se periodicamente às autoridades.
41 vezes sem carta
Foi apanhada 41 vezes a conduzir sem carta. O último julgamento de Cristina Araújo, em meados de Novembro, foi adiado porque o Tribunal de Coimbra decidiu submetê-la a um exame psiquiátrico. Cristina, antiga vendedora ambulante, tem 48 anos e conduz há mais de 20 sem carta. Natural de Coimbra, já chumbou nove vezes no exame do Código. Cinco dias depois de o tribunal ter decidido submetê-la à perícia psiquiátrica, voltou a ser apanhada pela GNR em Cantanhede, mas desta vez Cristina nega que estivesse a conduzir.
"Ermelo sem medo"
O candidato do PS à Junta de Freguesia de Ermelo entrou na sala de voto às sete da manhã. Disparou um tiro de caçadeira que atingiu a cabeça do marido da presidente da junta e candidata pelo PSD. Maximino Clemente teve morte imediata. António Cunha esteve a monte três dias, mas acabou por se entregar às autoridades e aguarda julgamento na prisão de Vila Real. As eleições foram adiadas uma semana. Antes, todos os cartazes da candidatura do PS, que escolheu o slogan “Ermelo não pode ter medo”, foram retirados da freguesia.
12 horas à espera de exame
Uma rapariga de 17 anos foi violada em Agosto, em Telheiras, quando regressava a casa. O agressor obrigou-a a fazer-lhe sexo oral numa arrecadação do prédio. No Hospital de Santa Maria foi pedido à adolescente que aguardasse até às oito da manhã do dia seguinte sem ingerir líquidos, tomar banho ou lavar os dentes – de forma a não eliminar vestígios –, até que chegasse um perito do Instituto de Medicina Legal habilitado para a realização dos exames necessários. O que só aconteceu 12 horas depois da violação.
Matou mulher e GNR
Depois de anos a fio de violência doméstica, Maria Costa foi à esquadra de Montemor-o-Velho apresentar queixa contra o marido, na madrugada de 29 de Novembro. Foi encaminhada para o hospital, mas o marido, ex-fuzileiro, seguiu-a e matou-a com dois tiros de caçadeira, dentro da ambulância, em frente à GNR. O homem, de 41 anos, foi levado para dentro do posto, onde conseguiu sacar de uma pistola e disparar dois tiros. Um deles foi fatal para o guarda David Dias, que teve morte imediata. Outro GNR ficou ferido.
Atirou-se ao Douro com o filho
Anabela tinha medo que o filho morresse e achava que o menino, de seis anos, tinha uma doença incurável, e por isso decidiu acabar-lhe com o sofrimento, em Outubro, e atirou-se com ele ao rio Douro. Anabela sobreviveu. O filho, André, não. Antes de tentar o suicídio, deixou dois bilhetes no carro, com o nome e o número de telemóvel do marido. Depois de resgatada, a mulher foi internada no Hospital Eduardo Santos Silva, em Vila Nova de Gaia, onde continua internada. Ainda não se sabe se será considerada inimputável.

Para além dos lamentáveis casos claramente motivados por factores emocionais e de algumas evidentes inabilidades, permito-me destacar «Quando a bolha rebenta», principalmente porque imagino muita acção: um jantar alargado; três roubam setecentos e tal convivas, conseguindo em 15 minutos, uma colheita de cerca de um milhão de euros, uppsss... coisa séria. Estranho o pouco que se falou neste caso e mais estranho ainda que dos setecentos e tal contribuintes para tão rendoso pecúlio, nem um apresentasse queixa às autoridades. Ladrões sortudos estes. Curioso...
Curioso também o facto de nem o Freeport, nem o Face Oculta surgirem na lista. Estranha-se porque quem ouve e vê as notícias, dirá que foram esses os verdadeiros casos criminais do ano.
Enfim, não se pode perceber tudo.

PS: A imagem da Justiça usada, foi raptada em www.shutterstock.com/...pt/s/justiça/search.html

domingo, 27 de dezembro de 2009

Liu Xiaobo e a real politique


O dissidente chinês Liu Xiaobo, foi condenado a 11 anos de trabalhos forçados por publicamente ter manifestado a sua opinião, que é contrária ao pensamento oficial do seu país – sim, aquele país tem um pensamento oficial.

A geração a que pertenço cresceu a ouvir vozes críticas, de apoio ou de tolerância, face a situações como esta. Durante a guerra fria, as acusações eram recíprocas emitidas de um e de outro lado do muro. Hoje não existe a confrontação de blocos como existiu até há 20 anos. A geopolítica mundial alterou-se consideravelmente. A guerra, nem sempre tão fria assim, já não existe. A guerra hoje não é por um modelo ideológico, mas económico, ou mais redutor, apenas pela economia. Nestas duas décadas a China transformou-se na grande potência mundial que é, detentora de grande parte da dívida externa americana, com interesses em todo o mundo e com tal pujança, que já se atreve a contestar o dólar como moeda preferencial para as trocas internacionais. Os EUA tremem com tal poder porque não o podem afrontar. Perante isto, que interessam as violações dos direitos humanos? Mesmo quando o país que os viola é governado por um partido dito comunista, como o era a URSS. Mas que peso tem isso no limiar de 2010 fase ao peso da economia? É a real politique...

Mesmo para um presidente como Obama, eleito com as mais altas expectativas por ser considerado um guardião dos valores humanistas, que peso tem a condenação de um homem nestas circunstâncias? Será por isso que não se ouve uma voz, daquelas que se fazem ouvir, em defesa deste homem, que se limitou a dizer o que pensa? Ainda houve uns estrebuchos, é certo, a senhora Merkel - sempre ela - manifestou desagrado; da administração americana também saiu um comunicado com pezinhos de lã, como convém, mas logo o gigante do Oriente engrossou a voz para bradar que considerava uma ingerência nos assuntos internos da China e... fez-se silêncio geral.
Será por isso que Obama foi o primeiro presidente americano a recusar receber o Dalai Lama? Foi, claro que foi! É a real politique... Obama não concorda com a opressão que sofre o povo tibetano, como não concorda com esta condenação aberrante que atingiu Liu Xiaobo e todos os homens de bem, mas outros valores se elevam, os do poder da economia, e cala-se. E assim, temos uma ditadura potencialmente perigosa, como o são todas as ditaduras com músculo, a decretar o que mais lhe convêm enquanto o mundo assobia para o ar ou conta os tostões.

Por Liu e por todos quantos vêem vilipendiados os seus direitos mais elementares; contra todas as formas de tirania, mesmo a económica, e contra quem, cobardemente, se cala perante o poder do mais forte.


sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

O meu Menino Jesus

Num meio dia de fim de primavera
Tive um sonho como uma fotografia
Vi Jesus Cristo descer à terra,
Veio pela encosta de um monte
Tornado outra vez menino,
A correr e a rolar-se pela erva
E a arrancar flores para as deitar fora
E a rir de modo a ouvir-se de longe.

Tinha fugido do céu,
Era nosso demais para fingir
De segunda pessoa da Trindade.
No céu era tudo falso, tudo em desacordo
Com flores e árvores e pedras,
No céu tinha que estar sempre sério
E de vez em quando de se tornar outra vez homem
E subir para a cruz, e estar sempre a morrer
Com uma coroa toda à roda de espinhos
E os pés espetados por um prego com cabeça,
E até com um trapo à roda da cintura
Como os pretos nas ilustrações.
Nem sequer o deixavam ter pai e mãe
Como as outras crianças.
O seu pai era duas pessoas -
Um velho chamado José, que era carpinteiro,
E que não era pai dele;
E o outro pai era uma pomba estúpida,
A única pomba feia do mundo
Porque não era do mundo nem era pomba.
E a sua mãe não tinha amado antes de o ter.
Não era mulher: era uma mala
Em que ele tinha vindo do céu.
E queriam que ele, que só nascera da mãe,
E nunca tivera pai para amar com respeito,
Pregasse a bondade e a justiça!

Um dia que Deus estava a dormir
E o Espírito Santo andava a voar,
Ele foi à caixa dos milagres e roubou três,
Com o primeiro fez que ninguém soubesse que ele tinha fugido.
Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.
Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz
E deixou-o pregado na cruz que há no céu
E serve de modelo às outras.
Depois fugiu para o sol
E desceu pelo primeiro raio que apanhou.
Hoje vive na minha aldeia comigo.
É uma criança bonita de riso e natural.
Limpa o nariz no braço direito,
Chapinha nas poças de água,
Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.
Atira pedras nos burros,
Rouba as frutas dos pomares
E foge a chorar e a gritar dos cães.
E, porque sabe que elas não gostam
E que toda a gente acha graça,
Corre atrás das raparigas
Que vão em ranchos pelas estradas
Com as bilhas às cabeças
E levanta-lhes as saias.

A mim ensinou-me tudo.
Ensinou-me a olhar para as cousas,
Aponta-me todas as cousas que há nas flores.
Mostra-me como as pedras são engraçadas
Quando a gente as tem na mão
E olha devagar para elas.
Diz-me muito mal de Deus,
Diz que ele é um velho estúpido e doente,
Sempre a escarrar no chão
E a dizer indecências.
A Virgem Maria leva as tardes da eternidade a fazer meia,
E o Espírito Santo coça-se com o bico
E empoleira-se nas cadeiras e suja-as.
Tudo no céu é estúpido como a Igreja Católica.
Diz-me que Deus não percebe nada
Das coisas que criou -
"Se é que as criou, do que duvido" -
"Ele diz, por exemplo, que os seres cantam a sua glória,
mas os seres não cantam nada,
se cantassem seriam cantores.
Os seres existem e mais nada,
E por isso se chamam seres".
E depois, cansado de dizer mal de Deus,
O Menino Jesus adormece nos meus braços
E eu levo-o ao colo para casa.
..........................................................................
Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro.
Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava.
Ele é o humano que é natural,
Ele é o divino que sorri e que brinca.
E por isso é que eu sei com toda a certeza
Que ele é o Menino Jesus verdadeiro.
E a criança tão humana que é divina
É esta minha quotidiana vida de poeta,
E é porque ele anda sempre comigo que eu sou poeta sempre,
E que o meu mínimo olhar
Me enche de sensação,
E o mais pequeno som, seja do que for,
Parece falar comigo.

A Criança Nova que habita onde vivo
Dá-me uma mão a mim
E a outra a tudo que existe
E assim vamos os três pelo caminho que houver,
Saltando e cantando e rindo
E gozando o nosso segredo comum
Que é o de saber por toda a parte
Que não há mistério no mundo
E que tudo vale a pena.

A Criança Eterna acompanha-me sempre.
A direção do meu olhar é o seu dedo apontando.
O meu ouvido atento alegremente a todos os sons
São as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas.
Damo-nos tão bem um com o outro
Na companhia de tudo
Que nunca pensamos um no outro,
Mas vivemos juntos a dois
Com um acordo íntimo
Como a mão direita e a esquerda.

Ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhas
No degrau da porta de casa,
Graves como convém a um deus e a um poeta,
E como se cada pedra
Fosse todo o universo
E fosse por isso um grande perigo para ela
Deixá-la cair no chão.

Depois eu conto-lhe histórias das cousas só dos homens
E ele sorri, porque tudo é incrível.
Ri dos reis e dos que não são reis,
E tem pena de ouvir falar das guerras,
E dos comércios, e dos navios
Que ficam fumo no ar dos altos-mares.
Porque ele sabe que tudo isso falta àquela verdade
Que uma flor tem ao florescer
E que anda com a luz do sol
A variar os montes e os vales,
E a fazer doer aos olhos os muros caiados.
Depois ele adormece e eu deito-o
Levo-o ao colo para dentro de casa
E deito-o, despindo-o lentamente
E como seguindo um ritual muito limpo
E todo materno até ele estar nu.

Ele dorme dentro da minha alma
E às vezes acorda de noite
E brinca com os meus sonhos,
Vira uns de pernas para o ar,
Põe uns em cima dos outros
E bate as palmas sozinho
Sorrindo para o meu sono.
.................................................................................
Quando eu morrer, filhinho,
Seja eu a criança, o mais pequeno.
Pega-me tu no colo
E leva-me para dentro da tua casa.
Despe o meu ser cansado e humano
E deita-me na tua cama.
E conta-me histórias, caso eu acorde,
Para eu tornar a adormecer.
E dá-me sonhos teus para eu brincar
Até que nasça qualquer dia
Que tu sabes qual é.
....................................................................................
Esta é a história do meu Menino Jesus,
Por que razão que se perceba
Não há de ser ela mais verdadeira
Que tudo quanto os filósofos pensam
E tudo quanto as religiões ensinam?

Excertos do VIII Poema de O Guardador de Rebanhos - Fernando Pessoa na versão Alberto Caeiro


quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Presépio de Lata


Meninos de rua - Maputo



Meninos pedintes - Bissau


O menino que não conseguia pedir - Quinhamel

- Como se pode ficar indiferente a uma expressão como esta?

Presépio de Lata

Três estrelas de alumínio
A luzir num céu de querosene
Um bêbedo julgando-se césar
Faz um discurso solene

Sombras chinesas nas ruas
Esmeram-se aranhas nas teias
Impacientam-se gazuas
Corre o cavalo nas veias

Há uma luz branca na barraca
Lá dentro uma sagrada família
À porta um velho pneu com terra
Onde cresce uma buganvília

É o presépio de lata
Jingle bells, jingle bells,

Oiçam um choro de criança
Será branca negra ou mulata
Toquem as trompas da esperança
E assentem bem qual a data

A lua leva a boa nova
Aos arrabaldes mais distantes
Avisa os pastores sem tecto
Tristes reis magos errantes

E vem um sol de chapa fina
Subindo a anunciar o dia
Dois anjinhos de cartolina
Vão cantando aleluia

É o presépio de lata
Jingle bells, jingle bells,

Nasceu enfim o menino
Foi posto aqui à falsa fé
A mãe deixou-o sozinho
E o pai não se sabe quem é

É o presépio de lata
Jingle bells, jingle bells

Carlos Tê

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Cá se fazem... ou o Pai Natal e os Guardiões do Tempo

Desenho da menina Beatriz Cortez,
com carta e tudo

A pedido de muitas famílias que, dizem-me, não conseguem encontrar o Jornal de Letras, aqui fica o meu conto de Natal, inserto no último número daquele periódico.

Cá se fazem...
Uma das principais atribuições dos guardiões do tempo é verificar se está tudo em ordem com o calendário universal. Não é frequente, mas já houve casos de sumiço de dias comuns sem nunca se ter percebido como ou porquê, cabendo então ao Conselho de Guardiões ajustar o calendário e submetê-lo aos homens. Por estes dias, contudo, sucedeu algo mais grave e inaudito. Na última reunião magna de Novembro, ao consultar os registos secretos, o guardião-mor constatou que faltava um dia no mês seguinte, e logo calhou que fosse o dia de Natal. A estupefacção pelo insólito deu lugar à indignação pelo atrevimento.

- Quem ousou mexer no meu calendário? Quem fez desaparecer o Natal, pondo em perigo os nossos lugares neste Conselho? – bradou ele, ao ritmo dos murros que desferia na mesa.

A atrapalhação da dúzia e meia de guardiões adjuntos foi visível e a todos tocou por igual. Temerosos, entreolharam-se sussurrando, procurando dar a entender que estavam tão surpreendidos, preocupados e indignados quanto o grande líder.

Perante a indefinição e à falta de qualquer esclarecimento convincente, o guardião-mor mandou chamar o detective Ampulha, um especialista em problemas de tempo perdido, prometendo-lhe uma recompensa por objectivos.

Ampulha usou toda a sua vasta experiência e saber, e foi ao encontro dos responsáveis directos e indirectos pela gestão do calendário. Fez interrogatórios, cruzou informação, espiou, extorquiu, vasculhou, escutou, perscrutou e, em meados de Dezembro apresentou as suas conclusões.

O Pai Natal estava determinado a não cumprir a sua tarefa anual e agiu, socorrendo-se de quem o podia ajudar nesse propósito. Na verdade, ao longo dos anos, viu goradas todas as promessas sistematicamente reiteradas. Estava cansado das más condições de trabalho que, ainda assim, pioravam todos os anos em nome da estafada contenção de despesas. Exasperava com a falta de estacionamento condigno quando tinha de fazer o trabalho sujo - e até de legalidade duvidosa - que consiste em entrar pelas chaminés nas casas alheias, usando, como qualquer meliante, o método do escalamento. Acalentava um sonho antigo: pedir licença e passar pela porta. Estava farto dos cheiros a fritos retardados; das mãos, cara, roupa, barba e cabelo, repletos de gordura enegrecida. Só ele sabe que por trás de cada Pai Natal reluzente que vemos nas ruas e centros comerciais com as crianças ao colo, existe trabalho duro, dedicação à causa e até sofrimento. Mas, claro, ele não podia ser frontal ao ponto de fazer referência a todo o vasto rol de exigências que engendrara. Tinha uma imagem a preservar. Aquele papel de amigo e defensor das crianças, que nunca se importou de desempenhar, seria para manter e até enaltecer; dele dependia o seu estatuto. E estava tão resoluto, que usou o seu prestígio para convencer o porteiro a deixá-lo entrar onde se guardam os segredos do tempo, o Cronografício. Já no interior, não lhe foi difícil aceder e alterar os registos centrais do calendário de modo a que, de 24 se galgasse para 26. Não haveria Natal, não haveria Pai Natal, alguém teria de reparar. Era a sua deixa. Assim, quando o processo se tornasse irreversível, envergaria o seu melhor fato felpudo, pentearia cuidadosamente as longas barbas brancas, e chamaria os jornalistas para uma conferência de imprensa. Exporia ao mundo as suas exigências relativamente aos direitos das crianças, particularmente aqueles cujo incumprimento tanto o afectava, como por exemplo, o de todas poderem dispor de casas grandes, quentes e asseadas.

Boas contas fez o Pai Natal, mas qual quê… Descoberta a patranha, o Conselho viu renovado o mandato; o guardião-mor respirou fundo e sorriu na sua tranquilidade, levando a respirar fundo e a sorrir todos os guardiões adjuntos. Quanto a Ampulha, viu ser criado para ele o excedentário cargo de magno-segurança, e como ficou feliz...

Já o Pai Natal sentiu na pele a mundana e bem pragmática tese da inexistência de insubstituíveis. De nada lhe valeu apregoar inocência aos quatro ventos, dizendo que tudo não passava de uma maquinação contra ele montada por forças ocultas. Acabou destituído por manifesta incompetência em artimanhas, ainda que na nota de despedimento se alegasse falta de perfil para a função, e, no último parágrafo, se recomendasse que a tarefa fosse entregue a uma central de distribuição global, seguindo o parecer da agência de comunicação contratada para o efeito.


domingo, 20 de dezembro de 2009

Curso de Escrita Criativa - El Corte Inglés



Decorre no El Corte Inglés de Lisboa, a 12ª edição do Curso de Escrita Criativa, sob a direcção de José Couto Nogueira. A exemplo de muitas outras iniciativas no âmbito da difusão cultural, patrocinadas por aquela multinacional espanhola, esta é particularmente interessante porque visa possibilitar o contacto entre amantes da escrita, sejam leitores ou escritores. A acção de formação é gratuita - coisa rara e também por isso de louvar -, bastando ter cartão de cliente para se poder participar. É composta por 11 sessões e ministrada na Sala de Âmbito Cultural, no Piso 7, às terças e quintas-feiras, das 19 às 21h00.
A presente edição iniciou-se no dia 12 de Novembro e vai terminar a 22 de Dezembro. Cada sessão é composta por duas partes de 45 minutos e inclui apresentações de autores e editores, havendo ainda um espaço destinado a debate.
Tendo em conta os méritos da iniciativa e o simpático convite de José Couto Nogueira, também eu darei o meu contributo e, assim, com todo o prazer, lá estarei na próxima terça-feira.

sábado, 19 de dezembro de 2009

A justiça e a democracia



Adivinhem quem recentemente escreveu a seguinte frase, que em nada abona a nossa democracia:

«No antigo regime(...) a justiça (...) funcionava muito melhor do que hoje.»

Dou algumas hipóteses:
- um antigo ministro da Justiça de antes do 25 de Abril;
- um outro qualquer velhinho saudosista do regime ditatorial;
- algum elemento da oposição ao actual Governo, em momento de algum desnorte.

Podia ter sido qualquer um deles, mas, de facto, o autor do dito conserva - ainda que não exiba – um título tão marcante quanto localizado no tempo: o de anti-fascista. Saiu de Portugal enquanto estudante universitário, devido a problemas com a polícia politica; não fez a guerra colonial e terminou o seu curso de Sociologia no estrangeiro - penso que na Suíça. Só regressou a Portugal após o 25 de Abril, tendo tido algum protagonismo político nos anos que se seguiram. Depois, abandonou a política activa e dedicou-se ao estudo, transformando-se num dos maiores conhecedores das entranhas sociais deste país. Chama-se António Barreto, e se ele disse tal coisa, só temos que lamentar, não o facto de o ter feito, mas o real estado da justiça portuguesa nestes dias que vamos vivendo.

Pergunto: se a sociedade portuguesa está irreconhecível para melhor, se ao longo da sua história o povo português nunca teve a qualidade de vida que tem hoje - e isto é inegável -, onde, como e porque falhámos na justiça?

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Copenhaga, ano zero? Parece que sim.

Afinal, surpreenderam-me. Parece que se entenderam.
Não conhecemos ainda os termos do entendimento, talvez os próximos tempos sejam esclarecedores relativamente a essa matéria, mas o simples facto de os líderes políticos terem tido a inteligência de assinar um tratado antes de abandonarem Copenhaga, é, por si só, um dado positivo; o início do caminho certo. Deseja-se.
Parece que me enganei na dose excessiva de cepticismo. Surpreenderam-me, e fico feliz com isso.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Jornal de Letras - A «biografia» do Pai Natal

Em resposta a um simpático convite de Rita Silva Freire, do Jornal de Letras, em 3500 caracteres, desenhei um conto alusivo à época festiva que se aproxima, onde o Pai Natal surge apertado pelas regras da globalização. Sai amanhã.

domingo, 13 de dezembro de 2009

Copenhaga, ano zero?



A gaivota e o mar da Ericeira

Decorre em Copenhaga a conferência mundial sobre o clima, onde estão representados quase duzentos países.
De há muito, alguns têm vindo a alertar para os efeitos nefastos das bruscas alterações climáticas, em consequência directa do uso intensivo de combustíveis fósseis ao longo das últimas décadas. De há muito se fala em buracos na camada do ozono, de furações temíveis cada vez mais frequentes, do aumento da temperatura média e o consequente degelo das calotes polares, entre muitos outros fenómenos gravíssimos que, em última análise, podem colocar em perigo a sustentabilidade da vida no planeta.
Quase todos concordamos que alguma coisa tem de ser feita, e rapidamente. Mas grandes interesses económicos estão em jogo. As petrolíferas continuam a ser os grandes potentados económicos do mundo. Nenhum ser inteligente ignora a enorme capacidade de penetração destes na política de topo das principais potências, que são também as mais poluidoras.
Se para outra coisa não servir o encontro de Copenhaga, servirá certamente para provar ao mundo se essa relação promíscua se mantém em pleno ou, se pelo contrário, as pressões da opinião pública começam a produzir algum efeito.
Iniciou-se há uma semana e os sinais que nos chegam não são encorajadores. Mas estamos ainda na fase dos debates entre especialistas. No final, chegarão os políticos e só então ficaremos a conhecer o estado de saúde dessa perigosa relação através das conclusões que eles assinarem.
Estou céptico, confesso, mas muito gostaria que me surpreendessem.


Paisagem de Sanabria-Galiza


sábado, 12 de dezembro de 2009

Quase bloguista

Bastaram dois míseros mesitos, com várias horas diárias de prática, e já consegui colocar as capas dos livros e a fotografia do autor exactamente onde desejava. Isto vai... devagar, mas vai. Mais do que uma promessa do bloguismo nacional, sinto-me já uma quase certeza. Fiquemos pelo quase.

P.S.: Os direitos de autor são, obviamente, para respeitar. A minha fotografia é da autoria de um fotojornalista do 24 Horas, cujo nome de momento me falha e as tentativas efectuadas para o conseguir saíram frustradas. A justiça será reposta o mais rapidamente possível. Entretanto, a ele e a todos os criadores esquecidos e usurpados desta vida, os meus mais solidários e respeitosos cumprimentos.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Para constar


Lamentavelmente, nem todos tiveram oportunidade de apreciar um cozido de grão que
não se limitou a cumprir, estava delicioso.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Cheguei... no sábado

Cheguei no sábado, mas por aqui tudo continua na mesma. A face permanece oculta - divulgam-se as escutas ou não?; os desajustes nas contas do défice estão no ar; o desemprego não pára de crescer, e dói; a Justiça passeia alegremente pelas ruas da amargura e a gente vê; as crises – são várias, e a económica não é a mais grave – prosseguem a sua marcha imparável; José versus Aníbal...  mas fora do ringue.
Pelo menos na Guiné não se fala nisto.
Bom, vendo bem, talvez haja algumas novidades. Portugal e Brasil estão juntos no grupo G do Mundial; comem-se e respiram-se os estafados enfeites e a irritante música de sininhos e, upsss… tenho os pés frios como há muito não sentia.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

O cozido de grão combate a nostalgia


É quarta-feira, dia 2 de Dezembro. Às duas da manhã do próximo sábado, espero estar no avião que me vai levar a casa. Estou na Guiné-Bissau há cinco semanas e meia. Ontem vi na RTP Internacional a transmissão do evento que celebrou a entrada em vigor do Tratado de Lisboa. Gostei de ver a Torre, a Ponte, o Cristo Rei, o CCB, os Jerónimos, o estuário, a Praça do Império... Se algo não foi mostrado, pensei-o. Veio-me à memória o cheiro dos pastéis de Belém com a nuvem de canela a cobri-los, e cheguei a sentir o sabor da ginjinha quando, afinal, bebia uma estereotipada cerveja. Ouvi o Rodrigo Leão e pensei: «A banda sonora ideal para esta noite, naquele local, com esta alma.» Gostava de estar lá, não dentro da tenda transparente - muito boa ideia, aliás - mas fora, a cirandar por ali, a respirar aquele ar húmido envolto em noite e maresia. Passaram-se cinco semanas e meia... só cinco semanas e meia.
Às 8 horas de sábado estarei em Lisboa. No domingo, tenho encontro marcado com a família mais alargada e com os amigos mais chegados. A latinidade em pleno... Juntos avançaremos para um suculento cozido de grão à alentejana e para um belo tinto.
Só então a ânsia por chegar acalmará.