quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Cuidado Casimiro

O senhor Casimiro, que gosta do Sérgio Godinho por causa da canção com o seu nome, é o homem que trata de uns metros de terra que tenho à frente da porta de casa, e que a minha mulher insiste em chamar jardim. Casimiro é homem de verbo e rima fáceis, nem sempre com grande profundidade, mas fáceis. À sua natural boa disposição e ao prazer que tem no contacto com quem lhe dá troco, ao razoável talento para as plantas e menos para as rimas, Casimiro acumula outra característica: detesta o professor Cavaco «de há muitas léguas», como costuma dizer. Hoje, ao abrir a caixa do correio, encontrei um papel tosco e sujo com algumas frases escritas com letra quase desenhada e, no fim, lá estava a assinatura do bom do Casimiro. Certamente devido ao adiantado da campanha eleitoral, ele lá entendeu que devia dar o seu contributo militante anticavaquista e, face a esse desejo que adivinho, aqui deixo o fruto do seu labor intelectual:
- «Coelho ao poleiro, Cavaco rachado ao meio»
- «O Alegre é alegrete, o Cavaco é um barrete»
- «Chico Lopes é camarada, Cavaco é nada»
- «Nobre povo, nação valente, mas o Cavaco é estrangeiro»


segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

domingo, 9 de janeiro de 2011

Vítor Alves

Estava longe de pensar que no dia seguinte a colocar aqui um post sobre um capitão de Abril, tivesse de voltar a escrever sobre outro militar do MFA. E logo pelas piores razões: a sua morte. Falo, já se sabe, de Vítor Alves, que há uns tempos batalhava com um cancro que lhe minava os pulmões. Só estive com ele uma vez, foi num fim de tarde do último Verão. Acompanhei a Luísa Amaral e o José Luís Andrade a sua casa, em Oeiras. A casa que tantos oficiais conspiradores conheceram, devido às muitas e longas reuniões para a organização do MFA e de preparação do 25 de Abril.
Foi um homem débil fisicamente que nos abriu a porta. Não o reconheceria noutras circunstâncias. A doença já o atacava fortemente, a roupa ficava-lhe larga, os cabelos e os pelos da barba, que tanto o caracterizava, estavam em queda acentuada devido aos efeitos da quimioterapia. Como ele próprio se definia, era um tímido, mas sempre se mostrou afável e colaborante connosco enquanto o físico lho permitiu. Iniciávamos ali o trabalho que nos levará à produção de uma biografia deste incontornável militar de Abril. Falou-nos na sua falta de apetência pelos holofotes, mas disponibilizou-se para nos ajudar no que pudesse. Ficámos de regressar quando, ao fim de duas horas de envolvente conversa, nos despedimos dado ter informado que precisava de descansar.
Saí com a convicção pesarosa de que dificilmente resistiria para poder participar no lançamento formal da sua biografia, mas sempre pensei que teríamos oportunidade de voltar a estar juntos, e ouvi-lo contar com aquela serenidade muito sua e em primeira mão, os episódios em que participou, alguns de relevância fundamental para a História recente deste país.
Hoje à hora do almoço, fui surpreendido com a notícia da sua morte e foi como se um vazio instantâneo me assaltasse; como se me tivesse morrido alguém próximo. E só estive com ele uma vez. Mas a verdade é que o conhecia bem por tudo quanto tive de estudar para levar avante o trabalho a que me comprometi mas, mais importante do que isso, é o facto de me identificar completamente com o seu padrão humanista de pensamento, com a sua forma de ver o mundo e de interagir com os seus semelhantes.
Morreu um homem bom.

sábado, 8 de janeiro de 2011

Capitão de Abril, Capitão de Novembro

Tendo em vista a concretização de dois projectos literários que andam à volta do 25 de Abril, nos últimos meses as minhas leituras não têm tido outro objectivo que não vise documentar-me sobre factos e pessoas ligadas àquele tempo. Com esse fito, terminei recentemente a leitura do livro do coronel Sousa e Castro, «Capitão de Abril, Capitão de Novembro». Venho aqui falar dele porque detectei um aspecto que, na minha opinião, marca a diferença relativamente a muitos outros que pude ler: os presos políticos do após 25 de Abril.
Desde a Revolução que derrubou o Estado Novo até ao 25 de Novembro de 1975, foram parar às prisões portuguesas pessoas ligadas ao antigo regime - por exemplo os efectivos da PIDE/DGS; depois, na sequência do 28 de Setembro e 11 de Março de 1975, outras pessoas, estas conotadas com o general Spínola, e, por fim, devido ao 25 de Novembro, mais uns quantos militares foram detidos, estes ligados à extrema-esquerda. Não é este um assunto muito abordado na vasta obra que sobre este tempo histórico foi produzida e não honra muito os portugueses que então tiveram responsabilidades políticas, o tratamento dado a estes presos, sendo que o coronel Sousa e Castro o diz com todo as letras, pondo à frente dos aspectos políticos e ideológicos nesta sua obra, o humanismo que é devido a todos. Honra seja feita ao capitão de Abril, mas também capitão de Novembro, Sousa e Castro.
  

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Ciclo de cinema de Manuel Guimarães, em Alenquer

Ao longo de todo este mês de Janeiro, na Biblioteca Municipal de Alenquer decorrerá um ciclo de cinema dedicado a Manuel Guimarães. Todas as sextas-feiras vamos ter um filme e no dia 28, uma mesa redonda sobre o realizador e a sua obra. Hoje passou «Saltimbancos», de 1952, com Artur Semedo; dia 14 passará «O Trigo e o Joio», baseado na obra homónima de Fernando Namora, e a 21 é a vez de «Nazaré».
É este um cinema votado ao esquecimento nos dias de hoje, porque se enquadra numa estética que está, infelizmente, completamente fora de moda, o neo-realismo. Surge como alternativa às tradicionais comédias, e vai abrir caminho ao chamado «cinema novo», que terá o seu ponto alto nos anos 60.
Se estão por perto e gostam de bom cinema não faltem, até porque, meus amigos, é à borla.

Cartaz de «Saltimbancos»