quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Fernando Pessoa por Joao Villaret- Tabacaria


E para terminar este mês de Agosto, triste como os dias que passam, um grande poema, talvez o maior, de um dos grandes poetas da língua portuguesa, talvez o maior, dito por um grande declamador. Aliás, João Villaret ainda privou com Fernando Pessoa. Foi o actor quem o contou num dos seus programas para a RTP que eu vi há uns anos. Foi-lhe apresentado por um outro grande poeta, este maldito, que viveu os últimos anos de vida na maior miséria e morreu lá longe, porque a Pátria não o quis. Hoje está esquecido, injustamente digo eu, mas muitos estarão comigo. É o António Botto.

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Portugal, um país único

Arrisco um pouco ao dizer que somos o único país do mundo onde os serviços secretos não podem fazer escutas telefónicas – têm que arriscar quando as fazem. Arrisco menos ao dizer que somos o único país do mundo onde a base de vestígios biológicos, que tardou, não serve para nada – a não ser para quem a governa. Não arrisco coisa alguma ao dizer que somos o país com a Comissão Nacional de Protecção de Dados mais poderosa do mundo.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

A independência da Madeira

Mais uma vez o fantasma da independência da Madeira surgiu, agora a propósito da possível extinção da Zona Franca. Parece-me excessivo que este fantasma nos visite tão frequentemente, particularmente tendo em conta o quanto nos custa - a cada um dos pagantes de impostos deste país -, manter a despesa do arquipélago. Acho chocante o nível de endividamento a que chegaram – e lhes permitiram - e acho escandaloso o desvio brutal nas contas dos festejos do aniversário do Funchal. Vergonhoso mesmo, neste mísero contexto em que vivemos. Como se tudo isto não bastasse, temos a «ameaça» da independência sempre a pairar. Acho demais.
Acho mesmo que é tempo de acabarmos com este papão, fazendo o que for necessário para dar voz ao povo da Madeira e de Porto Santo. Se ele entender que é melhor viver separado da nação portuguesa que o assuma definitivamente, para que esse machado não penda permanentemente sobre Portugal que, diga-se, com receio e de cedência em cedência, permitiu este nível de endividamento ao longo dos anos.
Além do mais, um referendo ajudava a aclarar as águas. Como, acredito, os madeirenses votariam contra o corte deste cordão que nos liga há quase 600 anos, este discurso viscoso e quem sistematicamente o produz, tentando sempre semear a discórdia com Portugal para colher proventos, seriam erradicados da vida política para sempre.
Basta de cedências a chantagens. É tempo de dar voz aos madeirenses para que definitivamente decidam o seu futuro.



quinta-feira, 25 de agosto de 2011

«Os pobres que paguem a crise, são mais e já estão habituados»

«Os ricos que paguem a crise», é uma frase que vem dos tempos que se seguiram ao 25 de Abril. Saiu das franjas mais extremistas da esquerda, mas mesmo quem a inventou não acreditou muito na sua eficácia, até porque do lado visado rapidamente surgiu a resposta: «Os pobres que paguem a crise, são mais e já estão habituados.» E assim tem sido.


Acontece que nos últimos dias os milionários despertaram subitamente para o espírito solidário e parecem dispostos a dar um contributo, à sua dimensão, para acabar com a dita crise. O dono da 3ª maior fortuna do mundo vai mais longe ao aconselhar os políticos a deixar de mimar os ricos. São palavras suas e ele lá sabe do que fala. Nada que não soubéssemos, mas nunca nenhum beneficiário desta evidente descriminação positiva fora tão longe.

Para mim, esta tomada de consciência - chamemos-lhe assim -, só prova a real gravidade da situação económica mundial e visa apenas um objectivo: evitar o agravamento da crise por temerem vir a perder muito mais devido aos graves tumultos sociais que perspectivam. Digo eu porque, verdadeiramente, só isso os faz tremer. E também eles estão a ficar nervosos.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Livro Novo

Há cinco minutos remeti para a caixa de correio electrónico do meu editor de sempre, o ficheiro com o meu novo livro que intitulei O Bairro (já registado).

domingo, 21 de agosto de 2011

A sociedade da abundância e a outra

Os irmãos Zé e Célia de Bafatá - Guiné-Bissau, em Novembro de 2009

Hoje, junto de um contentor do lixo perto de casa

sábado, 20 de agosto de 2011

léo ferré - avec le temps


 
Quando dei por ele estava já na fase descendente da vida e morreu pouco depois, velho com mais de 80 anos. Conheci mais dele depois da morte do que em vida, mas sempre admirei a sua postura algo anárquica de estar - a única possível para um verdadeiro artista.
Era o tempo em que a vida das canções era enorme face ao que é hoje. As regras do mercado tomaram conta dos Estados, mas já antes haviam tomado conta desse aparentemente anti-negócio, que é o que resulta da criatividade de alguém. Hoje um sucesso musical com seis meses é jurássico; já ninguém se lembra dele. E se passa na rádio, dá a ideia que é coisa velha como quem teve a triste ideia de o passar.
Era também o tempo em que havia tempo para amar os artistas, hoje vive-se de paixões - efémeras como só elas. Não sei se algum dos autores dos maiores sucessos musicais de hoje será recordado alguns anos após a sua morte. Francamente não sei e se calhar alguns até o mereciam, mas a voragem com que se vive não permite o tempo necessário para a criação do mito, que tanta falta faz ao imaginário das gerações e dos povos, porque são as suas referências. Hoje até o mito é como a pastilha elástica, de consumo imediato, usar e deitar fora. Podem até chamar-lhe mito, mas nunca chega a ser bem um mito.
Quando comecei a ter consciência das coisas, tive tempo para amar os artistas, mesmo os que estavam em final de carreira e até de vida. Os jovens de hoje com quinze anos podem dizer o mesmo? Pergunta parva esta. E quem perde? Os artistas certamente, mas também toda uma sociedade sem guias, de homens perdidos na escuridão que somos todos nós em nome do... como se chama? Mercado?

PS: estou pessimista para o jogo do Sporting amanhã, é o que é.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Público, Ípsilon, Não Nobel - À Beira do Abismo, Raymond Chandler

A pedido de muitas famílias, aqui deixo o texto que saiu hoje no Ípsilon e me foi pedido para promover o livro À Beira do Abismo de Raymond Chandler.

«Homens mortos pesam mais do que corações partidos
A escrita de Raymond Chandler é demasiado rica e entusiasmante para que a possamos dispensar independentemente das histórias interessantes que nos conta. Usa uma linguagem fresca, fluida, cintilante, que nos põe facilmente nos ambientes da trama, de frente e até dentro dos personagens; imagens simples mas tão eficazes, que se encaixam com toda a naturalidade no que de melhor a literatura nos pode oferecer: um tapete voador para a imaginação.

À Beira do Abismo foi publicado em 1939, com a Grande Depressão a fazer parte do passado na economia americana, mas não na mente das pessoas e nas palavras dos escritores. Era o tempo em que todos livremente fumavam e acendiam fósforos na unha com facilidade. E se hoje a primeira está à beira de figurar no Código Penal, a segunda deixa de fazer sentido por falta de objecto. Porém, o intemporal perpassa a obra, como esta passagem bem o documenta: «…pequenos marginais que cresceram em bairros miseráveis, apanhados mal puseram o pé em falso pela primeira vez e a quem nunca mais se deu uma oportunidade.» Felizmente, nada tem a ver connosco.

Chandler rondava os 50 quando deu vida a um personagem com 33 e logo o pôs a dizer que era solteiro por não gostar «de mulheres de polícias». O herói viria a ter outras seis aventuras nos anos seguintes e, por força do cinema tornar-se-ia mais famoso do que o seu criador. É o detective Philip Marlowe, um ex-polícia, duro, cínico, que por ser «insubordinado», teve de abandonar o serviço público e passar a trabalhar por conta própria. É ele que o diz «Não jogo Mikado. No meu jogo há sempre uma grande dose de bluff.» Guia-se por uma ética à prova de qualquer tentação. Um super herói. Fazendo minha uma frase de um dos personagens «Sei por experiência que as histórias policiais são sujas.» Esta não foge à regra, nem podia, é da natureza humana que trata.»

Inimigo Público futebolístico

O destacável humorístico do jornal Público, o Inimigo Público, hoje é inteiramente dedicado ao futebol e, não sei se pelo tema, os seus autores estiveram particularmente inspirados. Três exemplos a propósito da época de contratações e de dispensas que se vive:
- «Benfica contrata espermatozóide argentino tido por muitos como o novo Leo Messi»
- «Godinho (o presidente do Sporting) promete plantel rectificativo antes do final do ano»
- «Porto vai dispensar Danielle e Larissa a casa de alterne de Bragança»
                                                                                                                    Um mimo!

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

É o Zé do Telhado, mas ao contrário

Terei percebido bem? Eles querem aumentar o IVA para reduzir o desconto dos patrões para a Segurança Social? Se é assim, honra lhes seja feita, não tem nada que saber, os homens não querem enganar ninguém, é declaradamente roubar aos pobres para dar aos ricos. Sem qualquer pudor.
Ainda assim pergunto-me: que farão os patrões com o dinheiro que lhes sobra? Três hipóteses:
- investem na empresa, modernizando-a?
- aumentam o número de empregados, diminuindo o desemprego?
- compram um jipe novo?
Aceitam-se apostas!
São medidas como esta que vão revitalizar a economia, quando o consumo interno, um dos grandes motores, fica ainda mais atrofiado?
Desculpem, isto tem nome: é um aproveitamento vergonhoso da situação. Um despudor inqualificável.

sábado, 6 de agosto de 2011

A ROSA DE HIROSHIMA



Para complementar o post anterior, aqui fica outra visão da catástrofe. Não deixem de atentar nas imagens, algumas genuinas sobre os efeitos da dita cuja e por isso, mais chocantes ainda. «A vergonha de nós todos» da Sophia.

Todos os dias são dias de Sophia

«Vemos, ouvimos e lemos, não podemos ignorar a bomba de Hiroshima, vergonha de nós todos»

Qualquer pretexto serve para evocarmos os nossos grandes, embora o que se passou neste dia de 1945 esteja longe de ser um pretexto qualquer.

Evoco também um tal Francisco Fanhais, lembram-se? Hoje é o presidente da Associação José Afonso, mas era padre, ainda que diferente da esmagodora maioria dos seus iguais. De tal sorte que em 1970 (?) fez sair o seu único disco, um LP com um título sugestivo, Canções da Cidade Nova, onde incluia este e outros poemas da Sophia.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

O Leitor em fim de férias

Com as férias a chegar ao fim e cansado de revisões de texto, fui buscar um filme que já visionara, mas do qual, basicamente, me lembrava apenas de que havia gostado: O Leitor. Posso dizer agora que são histórias envolventes e interpretações sublimes como as que podemos ver neste filme, que fazem a magia do cinema. Arrebatador sob todos os aspectos. É a história de uma antiga guarda de um campo de concentração nazi que por ter vergonha de admitir não saber ler nem escrever, acabou condenada a prisão perpétua. Mas é também a história do seu jovem amante, que com ela descobriu a sexualidade e o amor, mas que alguns anos depois não vencerá igualmente o constrangimento de admitir ter mantido uma relação amorosa com a mulher que estava ser julgada, não a ajudando por isso a libertar-se de pena de prisão tão dura.
Duas horas fixado no ecrã. Fascinante e imperdível.

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Público - Não Nobel - Raymond Chandler - À Beira do Abismo - Carlos Ademar

 O Público lançou uma nova colecção de livros que intitulou Não Nobel, que tem vindo a sair com o jornal todas as quintas-feiras. Como escreveram os promotores, são obras de autores que foram consagrados pelo tempo e pelos leitores e, agora acrescento eu, não pelo júri do mais famoso prémio literário. No destacável de cultura Ipsilon, que vai para as bancas às sextas-feiras, está inluido um pequeno comentário sobre a obra que sairá na semana seguinte, da autoria de escritores convidados. A mim tocou-me À Beira do Abismo de Raymond Chandler que sairá no dia 12 e o livro na quinta-feira seguinte. Sobre o livro, direi apenas que é a primeira história em que surge o detective Philip Marlowe, muito conhecido pelos inúmeros filmes e séries realizados, e... ah, que Chandler era um grande mestre da escrita. A colecção já está a meio, ainda assim vale bem a pena dar uma espreitadela, trata-se de obras de autores que fazem parte da história da literatura mundial a um preço muito simpático.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Lei de Talião no Irão nuclear

Vi hoje no Telejornal, mas não fixei o nome da mulher e isso seria importante para colocar aqui uma fotografia do antes e do depois, porque só assim se perceberia os efeitos que os 4 litros de ácido sulfúrico produziram naquela iraniana. Direi apenas que era uma mulher muito bonita e para além de ter ficado cega, ficou irreconhecível em virtude das queimaduras provocadas, e tudo porque não aceitou o pedido de casamento que o seu carrasco lhe formulou.


Sete anos depois a sentença. No decurso do julgamento porém, e de acordo com a lei daquele país, que prevê a possibilidade de aplicação da chamada Lei de Talião, «olho por olho, dente por dente», a vítima pediu que o autor fosse sentenciado a sofrer um pouco o que ela havia sofrido. Um pouco porque em vez dos 4 litros, ser-lhe-iam aplicadas «apenas» 4 ou 5 gotas de ácido sulfúrico nos olhos. Um horror só de pensar. Acontece que a sentença foi ao encontro do pedido da mulher e quando estava na iminência de ser aplicada, com os médicos já prontos, quais carrascos com a seringa a jeito, digo eu, a vítima perdoou-lhe.

«Eu que me comovo por tudo e por nada» fiquei a pensar: grande lição de vida, de humanidade que esta tipa deu ao gajo e a todos os gajos e gajas que não erradicaram ainda das suas cabeças a possibilidade de um dia cometerem uma loucura semelhante à que aquele tonto com sorte cometeu. Depois, já no fim da notícia, falava-se de uma pena alternativa de 150 mil euros a pagar à vítima e a minha comoção atenuou um pouco. Ainda assim, continua a ser um gesto magnânimo que ilustra quem o comete, particularmente nas circunstâncias em que a mulher se encontra, mas leva, sem qualquer equívoco, a condenar o país que em pleno século XXI, permite a aplicação de uma forma de «justiça» tão arcaica como aquela.