quarta-feira, 30 de novembro de 2011

A Portuguesa na pré-primária de Maputo ou a mangueira da esperança

De frente da minha janela está uma enorme mangueira, cujos ramos mais delgados quase tocam a parede do hotel, que me impede a visibilidade das construções mais próximas. Para a esquerda e para a direita a linha do horizonte perde-se no casario mais longínquo, mas imediatamente à minha frente, só o verde da árvore imensa.
Hoje é dia de trabalho no hotel e bem cedo, apenas os cantares das crianças me iam chegando nem sempre afinados, mas enérgicos e alegres. Sem que nada o fizesse prever, passo a ouvir algo muito familiar: A Portuguesa, o hino nacional português desde a implantação da República. A que propósito, numa escola infantil moçambicana, se canta o hino português? Incluído, de resto, num repertório vastíssimo, aparentemente infindável, onde já antes ouvira canções de Natal - «A Todos Um Bom Natal» (nem aqui escapo...) - e outras infantis, mais ou menos conhecidas. Achei curioso e digno de registo. Ainda pensei que se tratasse de uma escola portuguesa. Perguntei às empregadas que faziam a limpeza dos quartos. É moçambicana, disseram. Foi um bom tónico para o início de mais um dia em Maputo.
Por detrás da mangueira germina um futuro de entendimento entre dois povos irmãos, com quinhentos anos de história comum e que só as tiranias colocaram de costas voltadas durante algum tempo. À sombra da mangueira, constrói-se um futuro saudável, sem peias mentais, amarras ou preconceitos. Acredito que sim - esse é o caminho.





                                                                                
   

domingo, 27 de novembro de 2011

Maputo a partir do terraço do Hotel África

O Hotel África foi recentemente aberto ao público, é central relativamente aos limites da cidade, e foi instalado num edifício de 10 andares onde funcionou a Embaixada da URSS.




No dia em que o fado foi carimbado - como se precisasse - património da humanidade, em Maputo a manhã estava linda, sol brilhante, céu azul, os ecos eram os da marrabenta e porque se aproximava a hora do almoço, os odores de caril andavam no ar. «A Pérola do Índico»

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

A Laurentina perdeu o trono de rainha

Aquando da descolonização, os chamados retornados, os oriundos de Moçambique, foram os responsáveis pelo nascimento de um mito: Laurentina. A forma como falavam da cerveja, com a paixão de quem fala da mais bela das mulheres, talvez associado ao nome de mulher que é o dela, contribuíram para que em mim, que ainda não bebia cerveja mas já tinha as hormonas aos saltos - e como saltavam - o nome Laurentina passasse a ser fruto de desejo mitigado.
As primeiras vezes que vim a Moçambique, a Laurentina satisfez plenamente esse desejo e vivemos belos momentos. Mas eis senão quando, e há sempre uma primeira vez, meteu-se pelo meio uma intrusa, com origens sul-africanas, com um nome nada sugestivo: 2M. Uma verdadeira infidelidade para com a velha amante dos meus sonhos de adolescente. Mas então, a Laurentina tinha ido vadiar e não estava disponível e quando a besta que é o apetite voraz se solta, não se compadece com fidelidades e vai de estabelecer contacto com a intrusa. Ainda olhei para ela com desdém, como que a acusá-la de chegar de novo para ocupar um lugar que não lhe pertencia; ameacei mesmo hesitar se lhe pegava ou não, fiz-me difícil. Mas as cervejas, quando querem, têm formas de sedução irresistíveis. Usou de todas as suas manhas, manhas de cerveja bem fresca, e pôs-se, lasciva, a deixar escorrer pequenas gotículas de água pelo vidro embaciado, deixando-me a engolir em seco. Não sou perfeito, longe disso e traí a Laurentina e o pior de tudo, o que faz de mim um verdadeiro ingrato, é que gostei.
Voltarei sempre à Laurentina, como quem volta a um velho amor, para recordar belas emoções, tempos idos e será bom, mas a minha paixão é a 2M.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Um passeio pelas ruas de Maputo

Quarta-feira, saí do hotel que fica na Av. Agostinho Neto e fui em busca de um passeio, se possível com um café como gratificação. Segui pela Av. Amílcar Cabral, entrei na enorme Mao Tsé Tung e ao fim de um km, do outro lado da avenida, vi a primeira esplanada. Muita gente nas ruas, muitos carros, vendedores ambulantes que escolhem as esquinas para se instalar e muitos vendedores verdadeiramente deambulantes, já que percorrem as ruas em busca de clientes carregando a mercadoria. Numa das esquinas, uma velha muito velha, agachada, tinha para venda quatro ovos, dois pacotes de pilhas pequenas e num fogareiro assava três maçarocas de milho – e que aroma tentador de lá saia… Vários engraxadores sapateiros fazem das esquinas de Maputo a sua oficina, mas em maior quantidade, os vendedores de cartões da M-Cel, uma das operadoras de comunicações, que se distinguem pelos seus berrantes coletes amarelos.
Quando esperava um queque ou um bolo de arroz, a empregada ofereceu-me chamuças ou «coxinhas de galinha».
- Uma dose de chamuças! – gritou ela para a cozinha.
- Quantas são? – perguntei de imediato.
Eram quatro. Arriscado, tendo em conta a hora matutina, pensei.
Entre as muitas pessoas que iam passando na larga avenida, duas meninas na casa dos onze, doze anos, seguiam junto da esplanada. Eram bonitas, pobres e tristes. Transportavam qualquer coisa em caixas velhas de cartão. Chinelos de plástico, calções de licra, camisolas de manga curta, eram a indumentária gasta pelo uso. Uma delas, porém, tinha estampado a toda a altura e largura da camisola letras grossas e douradas que compunham a frase: I want only Guess.
As chamuças eram pequenas, acabadas de fazer e saborosíssimas. Hei-de voltar.



sábado, 19 de novembro de 2011

Maputo, 2011

Na sequência do post anterior, não posso deixar de escrever aqui que as expectativas que existiam face às mais do que previsíveis dificuldades da viagem, foram superadas, o que tornou péssimas estas 25 horas.
Mas estes meninos de Maputo, que fui encontrar acidentalmente no blogue de Francisco Júnior, nada têm que ver com isso e fazem-nos até esquecer muitas coisas amargas, mas, inevitavelmente, lembram-nos outras.

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Crise a quanto obrigas...

Vou deixar o espaço do Euro por trinta dias. Que alívio antecipado... Deixo a crise europeia, a derrota por KO da social-democracia, do estado social, e da vitória arrasadora do neoliberalismo (gosto mais de capitalismo selvagem, porque é mais objectivo). Na verdade, já tudo me irrita e, como forma de protesto, rumo a sul para ir trabalhar. Acontece que uma viagem que demora normalmente dez horas, desta vez (por causa da crise? Só pode!) vai demorar vinte e quatro. Pois, infelizmente não me enganei. Vou conhecer três aviões e dois aeroportos que bem dispensava conhecer, mas então... meia dúzia de euros fazem a diferença e tudo vale. Quando quero ir para sul, saio de Lisboa para leste. Frankfurt é o meu destino, e dizem que tem um belo aeroporto. Por mim, vou ter quatro horas para o apreciar, porque só então tomarei novo avião que, se tudo correr bem, me levará a Joanesburgo, onde chegarei na manhã de sábado. Bom, já cheira a África, do Sul, mas África. Terei então algum tempo para conhecer o aeroporto da cidade e depois apanhar o terceiro avião que, não havendo atrasos nem outros percalços, uma hora depois me levará a pisar terra moçambicana. Vinte e quatro horas para fazer uma viagem de dez - gosto de viajar, mas tanto, definitivamente não.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Nova corrida, nova viagem...

A preparar as coisas (malas, revisão das primeiras provas do novo livro, matérias lectivas, espírito) para uma nova corrida, nova viagem, desta feita para respirar os ares de Maputo até meados de Dezembro.

domingo, 13 de novembro de 2011

Frei Fernando Ventura na RTPN


Cada vez gosto mais deste senhor. Aborda de forma clara as questões essenciais, sem cair no discurso fácil de apenas dizer mal dos políticos. Refere-se aos «cidadãos não praticantes» que continuamos a ser todos nós um pouco, e diz ser este o tempo da «revolução dos pacíficos» porque só assim se pode evitar que os pacíficos se transformem em não pacíficos. Vale bem a pena estar atento ao que diz este, parece-me, genuíno franciscano.   

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

ISTO NÃO FICA ASSIM!: CARTA ABERTA DE «GENTES DO LIVRO»

ISTO NÃO FICA ASSIM!: CARTA ABERTA DE «GENTES DO LIVRO»

A Livraria Esperança, no Funchal, é um verdadeiro monumento vivo ao livro e, naturalmente, está de parabéns quem o alimenta: Jorge Figueira de Sousa, que no próximo dia 21 completará 80 anos.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

A Madeira não perde beleza com a crise

Cerimoniosa, a capital vestiu-se de luz para nos receber
   
Na manhã seguinte, o Funchal espreitava e via-nos junto ao 
Cristo Rei de Garajau
E quando tinham todas as condições para fazer uma coisa em
grande, estragaram tudo. Alguém consegue ver a Fortaleza
de S. João Baptista, em Machico, a primeira construção
portuguesa por estas bandas? Mamarracho para
rentabilizar o espaço, espaço destruído.
Foi assim mais uma vez... infelizmente.


As casas típicas de Santana. É para turista ver,
mas ficam muito bem.

Do Pico das Pedras, através da neblina,
Santana e o mar

A neblina parecia nascer entre os picos mais altos e estes ficavam estáticos como bons picos que são, a vê-la cirandar em seu redor, subindo e descendo, rodopiando, acariciando, desaparecendo para logo regressar. Era o fabuloso baile da neblina no Pico das Pedras.

Portugal - The beauty of simplicity | HD Portugal Promotional Tourism Fi...


Nestes tempos de desânimo, sabe bem ver um filme como este.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Carlos Ademar no Casal das Letras

Estou na Madeira a passar estes últimos dias de férias. Darei mais notícias sobre a ilha - tenho, aliás, umas quantas fotografias para postar, mas a Internet disponível não mo permite, pelo que o farei mais tarde.
Hoje, dia 9 de Novembro, 4ª feira, não quero falar da tomada de posse de Alberto João Jardim, nem da tolerância de ponto dada aos funcionários públicos para melhor poderem assistir à cerimónia - não sei se na Albânia de outros tempos se seguia esta prática -, prefiro falar do http://www.casaldasletras.com/. Não é a primeira vez que o faço e todas serão poucas pela muita atenção que este espaço merece. Hoje, porém, uma razão algo narcísica fala mais alto. Os caríssimos Pedro Foyos e Maria Augusta Silva, dois jornalistas que se encontram naquela situação a que todos ambicionamos chegar, a reforma, brindaram-me com um convite para publicar um texto no seu magnífico espaço internético.
Ainda que o conto não vos agrade, a culpa não é do sítio onde foi colocado. Continuem por isso a dele desfrutar. Tem um acervo de centenas de entrevistas efectuadas nos últimos 50 anos às mais importantes personalidades da vida cultural portuguesa. Não as percam.
Ah, o texto chama-se «Susto de Morte».

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Férias

Estou de férias - os últimos dias deste ano. Uma mísera semana, mas, se calhar, em 2012 será pior. Aproveitemos.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Noviembre - A Arte é uma arma carregada de futuro


Bela curta, que tão bem define a arte. Tudo o que o trapezista diz subscrevo completa e obviamente, acrescentaria apenas que Arte, para o ser, deve subverter, é pura subversão. É nisso que assenta este argumento e é por isso os poderes, todos os poderes, tanto medo têm dela, particularmente quando emana de espíritos livres.