sábado, 29 de junho de 2013

O HOMEM DA CARBONÁRIA NO BLOGUE EUROPA



REVISTA DE ESTUDOS JUDITHIANOS
O Homem da Carbonária no blogue Europa
THURSDAY, DECEMBER 21, 2006
Judith Teixeira em "O homem da Carbonária" de Carlos Ademar



O romance de Carlos Ademar O homem da Carbonária, editado em Maio de 2006 pela Oficina do Livro, é um interessante caso de maturidade narrativa. Recuperando informação histórica dispersa sobre o primeiro quartel do século XX, realizada a transmigração literária, o resultado é, adentro da estratégia policial e investigativa, um interessante fresco lisboeta.
Este segundo romance do Autor, para além de fornecer importantes pistas paraliterárias, não permite nunca que o leitor abrande na sua perquirição. Não é pois esta voracidade qualidade despicienda. Foi já tomado pela vertigem da leitura que encontrei, na página 247, uma ressalvável menção a Judith Teixeira, que cito de um excurso sobre a "diferença" entre homens e mulheres: "Por exemplo, a escritora Fernanda de Castro, a pintora de cavalete Sarah Afonso, a poetisa Judith Teixeira, não ficam atrás de qualquer homem, nas suas áreas." Tal inclusão no romance é ainda complementada por uma nota informativa breve sobre a vida e a obra da escritora.
Judith Teixeira vai assim iluminando os novos tempos com uma capacidade que ninguém mais poderá reprimir.

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Greve Geral

Em dia de GREVE GERAL NACIONAL,esta pequena homenagem aos trabalhadores, com a reprodução de «A Greve» de Robert KOEHLER (1886) Mário de Carvalho

Fiz greve não apenas pelos dias tristes que hoje vivemos, mas também e sempre, em homenagem aos homens e mulheres de ontem, que, com as suas lutas, greves e sacrifícios, por vezes das próprias vidas, fizeram com que eu hoje tenha 8 horas de trabalho, férias, reforma, seguro no trabalho, segurança social, salário condigno, subsídio de desemprego, etc. etc.. Ao fazermos greve hoje, não estamos apenas a lutar contra o retrocesso civilizacional que nos estão a querer impor, estamos também a lutar pelos homens de amanhã. Sem demagogias, esta é a minha única linha orientadora nesta matéria.

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Песня. Голос - Пелагея и Эльмира Калимуллина


http://www.youtube.com/watch?v=0-pVjqnYmKc


O título deve querer dizer "Canção do Mar" num português quase russo. 
De facto, são duas russas vestidas à mulheres de Atenas, a cantarem muito 
bem a famosa canção portuguesa, acompanhadas por uma orquestra de peso. 
Bonito de ver e ouvir.   

sábado, 15 de junho de 2013

Salgueiro Maia a «O Jornal» -1988







25 anos depois, voltei a lê-la e já não me recordava que havia sido feita pelo Fernando Assis Pacheco. Guardei a revista (do velhinho O Jornal), não nas melhores condições, como facilmente se perceberá, mas voltei a emocionar-me com certas passagens do discurso daquele que, por ter cumprido a missão que achou ser sua, ter abdicado de todas as honras, recusado todos os convites, até para integrar o Conselho da Revolução e, também, há que dizê-lo, por ter morrido cedo de mais, é por muitos considerado o símbolo da pureza do 25 de Abril. Trata-se de um documento histórico, sem dúvida.   

quarta-feira, 12 de junho de 2013

As primeiras linhas do «Chalet das Cotovias»

«O que restava do advogado foi descoberto cerca de um mês depois daquela viagem inusitada a Sintra. Aconteceu no dia que se seguiu a uma tromba de água e o alerta foi dado por um caçador ocasional, residente na vila, paredes-meias com o Hotel Central. O homem caminhava na vasta zona de pinhal do Ninho das Cotovias e, apesar da abundância de caruma seca, as marcas das botas iam ficando bem vincadas na terra ainda mole, gerando um trilho que denunciava o percurso seguido. Um pouco por todo o lado, pequenos pedaços de ramos serviam como prova da força bruta com que foram esgalhados das árvores, devido à tempestade estival que assolou toda a região.
Seguia com a arma apoiada no ombro e uma lebre pendurada à cinta, que baloiçava a cada passo, quando foi desperto para a inquietude dos seus dois perdigueiros. Ainda se colocou em posição de atirador, suspeitando estar iminente a saída de nova presa, mas rápido se apercebeu de que os animais andavam como loucos, mas de volta de um pedaço de tecido escuro que parecia sair das entranhas da terra, como qualquer arbusto rasteiro. Aproximou-se e mexeu-lhe com a ponta do cano comprido da caçadeira. Era parte da aba de um casaco de homem. Estranhou o achado e acocorou-se para ver melhor. O único botão visível pareceu-lhe dos caros. Cuspiu-lhe e limpou-o com o lenço, ficando a vê-lo mais em pormenor. Tinha bom aspecto, era preto cortado por delicadas linhas de tons mais claros e apresentava gravado um trevo de quatro folhas. Os cães não paravam de ladrar e tentar fossar junto do tecido, procurando abocanhá-lo. Nem pouparam o dono a encontrões na ânsia de lhe chegar, levando-o a gritar-lhes mais do que era costume para que sossegassem. Olhou à sua volta e, como suspeitava, sentiu-se o único humano por aquelas bandas. Só na sua dianteira não havia pinheiros, pois um acidentado declive, com alguns arbustos e vegetação mais rasteira, começava ali, terminando duas dezenas de metros acima, no planalto onde fora edificado o Chalet das Cotovias, de que conseguia ver a parte superior do telhado.

Pensou que seria um desperdício deixar ficar aqueles botões, bem como no quanto a sua mulher lhe agradeceria se lhos levasse. Com a mão disponível, começou a puxar a aba suja do casaco tentando libertá-lo da terra. Porém, a tarefa não se mostrou tão fácil quanto a pensara. Pousou a arma e usou toda a força que conseguiu encontrar, mas pouco mais avançou. Ganhou ânimo ao ver um segundo botão e não soçobrou mesmo quando um odor desagradável se desprendeu, a que, de resto, nem ligou, tão empenhado estava em puxar. Foi ao procurar uma posição mais favorável para levar de vencido o peso da terra, que viu por debaixo do casaco escuro o tecido branco e fino de uma camisa e, assustado, parou de súbito. Só então e num ápice, associou a reacção dos cães e o cheiro que passou a sentir às peças de vestuário presas na terra. Uma certeza preencheu-o como um arrepio: o casaco não saía porque estava vestido num cadáver que jazia enterrado sob os seus pés.»

                                   (Aviso: isto é para acabar de vez com a 1ª edição)

sábado, 8 de junho de 2013

Micro conto policial

Era uma vez um gajo que gostava tanto, tanto, tanto de gajas, que um dia comeu uma. 
Era uma vez um detective que gostava tanto, tanto, tanto do que fazia, que um dia fez o gajo.


quinta-feira, 6 de junho de 2013

O «Públicio» entrou no Chalet das Cotovias e conta o que viu

Um texto de São José Almeida
«Portugal, 1935. Um homem aparece morto em Sintra. Consta que foi àquela vila atrás de uma irmã, participante em encontros culturais que, segundo alguns, eram também encontros lésbicos. É esta a história real na origem de O Chalet das Cotovias, de Carlos Ademar.
Um retrato do que foi a construção do Estado moderno em Portugal, já na face da ditadura do Estado Novo, através da tensão existente entre as forças de segurança que concretizaram a imposição da nova autoridade central - é isto que resulta do novo romance de Carlos Ademar, O Chalet das Cotovias, lançado pelas Edições Parsifal.
Recorrendo a um caso real que lhe foi relatado, em 2005, pela jornalista Isabel Braga - "Ela contou-me a história que tinha já investigado e disse-me que eu devia agarrá-la" -, Carlos Ademar constrói O Chalet das Cotoviasrecriando a tensão existente entre a Polícia de Investigação Criminal (PIC), criada em 1917 (em 1945 daria lugar à Polícia Judiciária), e a Polícia de Vigilância e Defesa do Estado (PVDE), criada em 1933 e substituída, também em 1945, pela Polícia Internacional de Defesa do Estado (PIDE).
O autor parte assim da história oral que foi transmitida entre gerações desde a época em que o caso decorreu, em 1935: um homem dado como desaparecido é depois encontrado morto num terreno perto de uma estrada em Sintra, depois de ter ido àquela vila no encalço de uma sua irmã, sobre a qual ouvira dizer que frequentava uma tertúlia cultural de mulheres - das quais se dizia em Lisboa serem lésbicas. Um grupo da elite social portuguesa do qual, conforme a história oral, faziam parte mulheres como Fernanda de Castro e uma filha do então Presidente da República Óscar Carmona.
Num misto de romance de costumes, romance policial e romance histórico, Carlos Ademar cria uma teia em que apresenta a relação tensa entre a PIC e a PVDE numa acção ficcional mas que retrata o que foi a construção de uma nova normatividade social, quer política, quer de costumes. Ou seja, uma sociedade em que qualquer espécie de afirmação política contra o regime era enquadrada pela violência repressiva da PVDE, que agia de forma brutal e arbitrária. Mas em que a imposição da heteronormatividade - iniciada pela aprovação da Lei da Mendicidade em 1912 - vai sendo feita em crescendo e é ampliada com a ditadura.
O Chalet das Cotovias ilustra assim a transformação da autoridade institucional na sequência da instalação do Estado central moderno em Portugal, mas já no início da sua fase mais repressiva. "Foi um processo que foi sendo construído, até porque a mentalidade não se muda por decreto - é uma evolução lenta, mas a construção do Estado moderno vai atacando o liberalismo de costumes", sublinha Carlos Ademar, que acrescenta: "As pessoas que não se encaixavam no modelo estavam entregues a si próprias ou tiveram de sair do país. Os que tiveram possibilidade saíram, como terá sido o caso de Judith Teixeira, de António Botto e de Raul Leal, os "poetas de Sodoma"."
Ficção, realidade
É assim o Portugal dos anos 30 do século XX que é recriado por este autor de romances de cariz policial e histórico que no passado foi investigador da Polícia Judiciária na secção de Homicídios e que hoje em dia é professor na Escola de Polícia Judiciária. O Portugal classista e fortemente estratificado, em que uma cidade como Lisboa estava ainda povoada pelos tipos sociais do Antigo Regime, mas em que já são visíveis os primeiros passos da industrialização. Um Portugal com miseráveis e famélicos, com pobres de pedir e remediados, com assistencialismo católico e revolucionários que acreditam num mundo novo.
Mas mesmo partindo de uma história real, O Chalet das Cotovias é uma ficção, explica o autor, que confessa mesmo que foi "trabalhando nela, tentando encontrar pistas", até que "um dia, em viagem por Moçambique, ao ler um livro", se deparou com "um capítulo feito pela Isabel Braga, O crime das cotovias, onde ela já precisava as datas do crime".
Com as datas, Carlos Ademar conseguiu encontrar e consultar o processo original no arquivo da PIC, depositado no Museu da Polícia. "Na altura, já começara o romance e tinha até já cerca de cem páginas escritas", conta o autor, confessando: "Depois de ler o processo fiquei decepcionado, porque não há uma única referência ao Chalet das Cotovias, nem aos nomes sonantes que a história oral reproduz." O homem realmente assassinado em 1935 em Sintra, continua, vivia com uma mulher, mas esta não foi assassinada. "No romance, a personagem da Margarida [amante de Luís Albuquerque e casada com o inspector da polícia política] é ficção, ela era necessária à trama ficcional que eu quis construir e foi necessária para poder dar a vertente da PVDE."

Ainda fazendo o paralelo com o processo original, Carlos Ademar revela que adaptou as datas do caso real para a ficção. "Adiantei seis meses a acção", explica: "No caso real, o homem desapareceu em Dezembro de 1935 e o corpo foi encontrado a 23 ou 24 de Fevereiro de 1936; eu centrei a acção antes para poder ter um enquadramento de época que me permitisse falar da PIC e da PVDE no contexto histórico do início da Guerra Civil de Espanha, da fundação da Legião Portuguesa e da criação do Campo do Tarrafal."»

Carlos Ademar na 83ª Feira do Livro de Lisboa



Sábado, dia 8, pelas 16H30, estarei no pavilhão do Clube do Autor/Parsifal para duas de 

conversa, beijos e abraços. Façam da Feira uma festa, apareçam.