quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

2014 em jeito de balanço, enquanto dá as últimas

Não sou de balanços, pelo menos públicos, mas enquanto espero os amigos que farão o favor de me encher a casa daqui a um par de horas, sem que me apeteça trabalhar - outros dias virão -, vou pensando brevemente no que de bom e de menos bom este ano, que hoje termina, me trouxe.


O mês de Abril, sem dúvida, destaca-se. Foi o mês da defesa académica de «Vítor Alves, o Revolucionário Tranquilo», dia 3, uma dissertação de mestrado que em 2015, revista e bastante aumentada, conhecerá os escaparates das livrarias. A 27 desse mês, na Fortaleza de Peniche, fizemos a apresentação de No Limite da Dor, já hoje uma obra fundamental para se conhecer o aparelho repressivo do Estado Novo. Vendo bem, talvez a publicação deste livro tenha sido o momento alto do ano para mim, pelo contributo que, tenho a consciência, demos (eu, a Ana Aranha e, essencialmente todos os antigos presos políticos que essa grande mulher da rádio portuguesa conseguiu entrevistar para o seu programa na Antena 1, de que resultou o livro) para a reconstituição da História recente deste País.
Em cima, na apresentação na RTP e, ao lado, na Fortaleza de Peniche, com Marcelo Teixeira, o grande editor da Parsifal, e Ana Aranha, a minha caríssima co-autora. Em baixo, o cartaz da peça de teatro concebida a partir do livro. 


Negativamente, de registar a crise, a incerteza em que vivemos, que, não obstante os discursos optimistas, que tresandam a eleições, não augura nada de bom. Uma das minhas filhas teve de ir para a Alemanha, porque não conseguia trabalhar na área de estudo (nem noutras) em Portugal. É triste, deprimente mesmo, face às enormes expectativas que à minha geração foram criadas. É triste verificar que os níveis de emigração dos últimos anos não andam muito longe dos números alcançados na segunda metade da década de 60 do século XX, o que dói. Habituámo-nos a pensar que isso era coisa do passado e que não voltaria; dói mais ainda porque, nesses tempos, as centenas de milhares que saiam eram portugueses iletrados, ou quase, e hoje os jovens que partem foram educados e formados para serem uma aposta de futuro para este País. País que depois de despender milhões na formação desta gente nova, dispensa-a, empurra-a para outras paragens, onde estão ou irão contribuir com as suas valências para o enriquecimento desses países, deixando o nosso cada vez mais pobre e, mais grave, ainda mais pobre de futuro.

Sem grandes esperanças, é preciso acreditar - como cantava Luís Goes -, que 2015 nos traga os primeiros sinais sérios, porque sustentados, que façam nascer o optimismo, de que tão necessitados estamos. É preciso acreditar!

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

O Chalet das Cotovias no Jornal de Sintra

O Chalet ainda mexe. Desta feita, um artigo bem assertivo publicado no Jornal de Sintra.


«Jornal de Sintra
31 de Outubro de 2014

Carlos Ademar - O Chalet das Cotovias

Um policial clássico passado em Sintra com força literária inusitada, publicado em 2013, O Chalet das Cotovias, de Carlos Ademar, antigo inspector da Polícia Judiciária e professor na Escola Superior de Polícia, resgata para a literatura portuguesa o romance policial clássico segundo o tradicional modelo de Georges Simenon e Agatha Christie (o policial como espelho das taras sociais e psicológicas da comunidade) e dos seus famosos inspectores da polícia Maigret e Poirot. Trata-se de uma narrativa de intriga mistério, de pendor realista que, extrapolando a ocorrência policial específica, intenta constituir-se como espelho histórico da sociedade, afirmando a fidelidade ao real e a veracidade escrupulosa da História, determinada a partir do ponto de vista dos documentos objectivos. No caso de O Chalet das Cotovias, aborda uma história real a partir de fontes reais, envolvendo-as numa trama narrativa exigente. Em O Chalet das Cotovias, trata-se de retratar os grupos sociais emergentes do Estado Novo ao longo das décadas de 1930 e 40, bem como a especial comunidade de habitantes femininos do Chalet das Cotovias em Sintra. Perfazendo as vezes de Maigret, desponta o chefe de polícia Manuel do Rosário, tão heterodoxo nas investigações quanto o seu homólogo francês.
Assim, por via das investigações em torno do desaparecimento do advogado Luís Lencastre e do aparecimento do seu corpo num descampado em Sintra, o autor, vocacionado por ofício e mestria para a escrita do romance policial, como a sua obra romanesca o prova e este romance o manifesta de um modo absoluto, explora tanto o universo de possibilidades de resolução do mistério policial, segundo metodologias de investigação próprias do período em questão, quanto a descrição de costumes sociais e de mentalidade psicológica do momento histórico, tendo em conta, sobretudo, a aversão moral na época ao lesbícimo, uma época puritana, fundada numa ética rural e católica fundamentalista, que intenta morigerar o liberalismo e o positivismo morais da I República.
No caso da investigação policial, o romance explora todas as possibilidades urdidas pela caracterização das personagens e pelo desenvolvimentos dos factos, desde a possibilidade de vingança política e de ciúme (Arnaldo Veiga, cuja mulher, Margarida, se tornara amante de Luís Lencastre, e os seus dois serventuários, descritos como autênticos “cães-polícia”) até à de ajuste de contas financeiro (o advogado Costa Valente), passando pela hipótese de roubo e assassinato (os mendigos “Matagatos” e “Zarolho”). A solução, só atingida no final do romance, constitui um verdadeiro achado e corre o risco (justo e legítimo) de ficar na história do policial português devido ao seu carácter insólito, ainda que perfeitamente lógico.
No caso da segunda vertente, o de se constituir como retrato da sociedade, João Céu e Silva escreveu no “QI” do “Diário de Notícias” de 3 de Agosto de 2013, que O Chalet das Cotovias opera a “perfeita reconstituição histórica de uma época fundacional do país que sobrevive até hoje”, isto é, evidencia com rigor a formação da polícia política (a Polícia de Vigilância e Defesa do Estado) e a criação da Legião Militar, mostrando que o modo como ambas as instituições arregimentam os seus servidores têm mais a ver com interesses pessoais do que com a defesa de propósitos ideológicos.
No Chalet das Cotovias, em Sintra, sucedem-se reuniões de senhoras que não se limitam ao chá, à quermesse ou bazar ou ao jogo de distracção. Frequentado por Florbela Espanca e Fernanda de Castro, intelectual e mulher de António Ferro, o ideólogo de Oliveira Salazar, as reuniões são animadas por Ju, dona do Chalet, que mantém relações de sentimento carnal com Gabi, Zefa e Maria. A irmã de Luís Lencastre, Rosinha, participa nestas soirées, e o advogado sai de Lisboa e dirige-se para o chalet, em Sintra, onde desaparece.
Ju, avassalada por uma sociedade puritana, fundada nos bons costumes da família burguesa, e por uma ideologia salazarista nascente, baseada na tripla instituição moral purista de Deus, Pátria e Família, fecha o chalet de Sintra e parte para o estrangeiro.
Sob a repressão política, a censura intelectual e a pobreza social, Portugal dormirá o longo sono de 48 anos do Estado Novo, até ressuscitar no dia 25 de Abril de 1974 e as novas Jus não precisarem de exilar-se para darem livre curso à sua sexualidade.
                                                                                            Luís Martins/Filomena Oliveira



O Chalet das Cotovias, Parsifal, 332 pp., 14,94 euros.»

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Morreu Vítor Crespo - Um bravo, um democrata

Morreu mais um «capitão de Abril». Tudo tem um tempo, é bem verdade. Desta vez foi Vítor Crespo, o representante da Marinha no Posto de Comando na Pontinha, um homem lúcido, de bom senso, firme, que marcou a sua actuação no período revolucionário com um equilíbrio e uma determinação, que, com outros, designadamente Vítor Alves e Melo Antunes, muito contribuiu para que este povo não voltasse a conhecer os horrores da guerra civil. Descansará em paz, tenho para mim, porque cumpriu a sua missão. 
Os que ficam por cá que lhe sigam o exemplo, façam a sua parte. Pêsames à sua família e à vasta família que partilha Abril.

domingo, 7 de dezembro de 2014

Zeca Afonso - Ao Vivo no Coliseu 1983



Há coisas que convém ter sempre à mão. Eu era um jovem chegado há pouco aos vinte, mas já tinha um enorme respeito por este senhor, pela sua obra artística e contributo na luta contra a ditadura. Por tudo isso, mas também pela sensação de que não teria muitas outras oportunidades para o ver ao vivo, fiz questão de marcar presença no Coliseu. No entanto, havia muitos a pensar como eu e os lugares não chegaram, para grande pena minha.
Nos dias seguintes desabafei com um amigo, mas a reacção que me chegou não me conformou, bem pelo contrário, já que ouvi algo como: «Ele também já não canta nada de jeito...». Era e é um bom amigo, mas com pouca sensibilidade musical e histórica. Eu sei o que perdi, esse meu amigo nunca o saberá. É assim a vida.
Em Fevereiro de 1987 viria a sua morte e o funeral em Setúbal, onde eu fazia questão de estar presente, sacrificando um dia de trabalho e de salário. Mas uma inesperada avaria no meu carro impossibilitou-me de estar presente naquela que foi uma enorme manifestação popular de reconhecimento ao grande artista e cidadão José Afonso. E, sem querer ser lamechas, direi que aquele dia foi por mim vivido de uma forma diferente, triste; tinha a consciência de que Portugal perdia um dos seus verdadeiramente grandes e eu não estava presente.
Duas despedidas ligadas a Zeca a que faltei e que, irremediavelmente, lamentarei para sempre.