Lembram-se de Leonardo Boof?

Lembram-se de Leonardo Boof?
Carnaval: “adeus, carne”, uma metáfora do reino da liberdade
1. Li referências do tempo em que o carnaval nasce primeiro como
manifestação popular na antiguidade para agradecer a chegada da primavera (ou
da vida no hemisfério norte). Depois, durante o período medieval, a festa é
assumida pela Igreja, algo que pelo que pesquisei só permanece até o final da
idade média. Por que o carnaval deixa de ser da igreja? Em algum lugar ele
ainda é vinculado à Igreja?
R/ O berço do carnaval ocidental se encontra na Igreja, apesar dos
antecedentes na cultura greco-latina. O próprio nome carnaval lembra esse fato.
A palavra “Carnaval” é a combinação de duas palavras latinas: “carnis”
que é carne e “vale” que é uma saudação, geralmente no final das cartas ou no
final de uma conversa. Significa “adeus”. Então antes de começar o tempo da
quaresma na quarta-feira de cinzas, que é tempo de jejuns e penitências, se
reservaram uns dias anteriores para dizer “adeus” à “carne”. Pois durante
todo o tempo da quaresma não se podia comer carne, como ainda hoje em algumas
regiões na Baviera alemã. De festa de cunho religioso passou a ser uma
festa meramente profana, na qual tudo podia ocorrer como bebedeiras e até
prostituição aberta. Ai a Igreja se afastou mas nunca totalmente. Em muitos
lugares, como no convento franciscano em que vivi em Munique, nos meus
tempos de estudo universitário, os frades no carnaval dançavam no convento e
chamavam freiras dos conventos vizinhos para dançar com eles. E depois se
revezavam: os frades iam dançar no convento das freiras. E se bebia vinho e
cerveja e muitas salsichas com mostarda. Mas tudo na maior decência. Não
deixava de ser engraçado de ver aqueles hábitos de frades e de freiras
esvoaçando em círculos. Eu como brasileiro no início ficava escandalizado, pois
no Brasil não havia isso. Mas acabei entendendo o sentido de liberdade antes de
começar o tempo do rigor e das penitências que eram sentidas à mesa, mais
sóbria e na falta de cerveja e vinho.
2. Encontrei referência que citam a origem do nome como carnis levare (de
retirar a carne) e como carnis valles (retirar o prazer). Qual das duas deram
origem ao nome carnaval?
R/ Ficou respondida anteriormente
3. Calha que essa festa popular pagã usa o calendário
cristão para se posicionar. E o carnaval, ao longo do último século, sofreu
transformações importantes dentro do seu papel em comunidades e valorização do
ritmo negro para hoje ser algo mais ligado ao showbusiness e
não necessariamente social. Como o senhor vê o papel do carnaval no Brasil,
historicamente, e a relação entre Igreja e essa festa popular
R/ O carnaval possuía no passado e possui ainda hoje
grande significado sociológico e antropológico. Há a intuição no povo e uma
certeza entre os estudiosos de que a sociedade com suas hierarquias e papéis
definidos é uma construção humana. Ela é fruto da vontade, geralmente, dos
poderosos que estabelecem as leis e as ordens que os beneficiam. É o mundo da
ordem estabelecida. A sociedade é assim uma construção que tem algo de
arbitrário. O carnaval é a inversão desta ordem. É conduzir a todos ao estado
original onde não havia hierarquias e papéis, ordem no qual todos eram iguais.
No carnaval cria-se um caos criador. Invertem-se os papéis. O rei deixa de ser
rei e cria-se o rei Momo; o rico se veste de pobre; o pobre se veste de rico; a
empregada anônima vira a princesa da ilha encantada; o vendedor de rua se
transmuta em príncipe e o príncipe num escravo. Até no carnaval romano os
escravos, durante aqueles dias, ficavam libertos. A sociedade precisa tirar as
máscaras e voltar ao seu estado “natural”. O carnaval possui uma função
socialmente terapêutica: pela inversão dos papéis todos podem se recriar, dar
vazão ao que no fundo gostariam de ser. Essa reviravolta, para acontecer, deve
vir acompanhada de uma mudança de consciência; dai a importância da bebida e da
comida que produz esta alteração: alteram-se as relações entre todos.
Agora não funciona o tempo do trabalho com leis, normas, prescrições e
comandos. Funciona o tempo livre, liberto das injunções, o ansiado reino
da liberdade de cada um ser, pelo menos por um momento, aquilo que lhe passar
pela cabeça. Pelo fato de no tempo medieval tudo era regido pela religião
e pela Igreja, os carnavais se realizavam dentro do espírito de alegria e de
liberdade permitidas por estas instâncias. Era a famosa festa dos foliões.
Leigos podiam se vestir de bispos e até de papas. As máscaras eram para
esconder as identidades e no fundo para dizer que tudo na sociedade e também na
Igreja são máscaras. Bobos somos todos que as tomamos a sério e cremos nelas.
São os papéis sociais. Mas chega um momento que nos damos conta de que as
máscaras são apenas máscaras e que os papéis sociais são criados e
distribuídos conforme a vontade dos que detém o poder. E que no fundo somos
todos humanos que tem as mesmas necessidades básicas que são intransferíveis. O
presidente da república não pode dizer ao secretário: vá fazer pipi para mim.
Ele mesmo tem que ir. Na medida em que a sociedade foi separando o sagrado do
profano, o carnaval escapou do controle da Igreja. Ganhou sua identidade
própria. Mas o seu significado básico continua o mesmo. O importante é que seja
feito pelos populares, por aqueles que socialmente nada contam. No carnaval
eles contam. São aplaudidos quando normalmente são eles que devem aplaudir.
Especialmente importante é o carnaval para os afro-descendentes: sempre
estiveram por baixo, eram os invisíveis. Agora se tornam visíveis, mostram a
sua rica humanidade que lhes tinha sido roubada e continua ainda a ser roubada.
Dai que no carnaval mostram todo o seu potencial criador. Bem dizia o Betinho:
o carnaval carioca é a nossa Mitsubishi. Quer dizer: tudo funciona
maravilhosamente como funciona a fábrica de automóveis japonesa.
4. Para finalizar e porque o carnaval é uma festa
altamente ligada ao prazer e a liberdade, direitos cada vez mais exigidos, por
que a condenação do prazer é algo tão marcante na vida religiosa? O vilão é
mesmo o prazer ou é o egoísmo, a falta de humanidade, de compaixão, de respeito
pelo próximo e pela vida? Por que tanta culpa pelo prazer? Por que, afinal, o
homem sente prazer.
R/ A essência do carnaval é tirar os super-egos
castradores e ordenadores da vida social. Eles são responsáveis pela ordem. A
ordem sempre impõe limites, cerceia o campo da liberdade, quando esta quer não
ter cerca nenhuma para se expressar. Quer espontaneidade e supõe criatividade.
É nesse âmbito que o ser humano se sente feliz. Porque há um momento em que os
controles caem e os homens da ordem não tem mais poder para impor a ordem. Eles
mesmos aproveitam a liberdade e tiram a máscara. Viram gente, gente livre, que
brinca, come e bebe sem se impor ordem. O prazer é essencial na vida, também
para as religiões, embora tenham sublimado o prazer projetando-o no céu. Mas
não existe céu sem terra. O prazer começa no tempo e culmina na
eternidade. Prazer é irradiação da vida, a sensação de estar sem amarras e
viver segundo seu ritmo interior. A busca da droga se deve a isso: ela produz
prazer. Somente que este prazer é destrutivo. Para curar alguém da droga
precisa-se inventar outras fontes de prazer que não sejam destrutivas. Qualquer
outro método é condenado à ineficácia. O carnaval resgata os direitos do
prazer, do corpo embelezado, ou libertado de adereços e roupas. O carnaval, de
forma secular, nos lembra que o céu não é outra coisa que um eterno e infinito
carnaval de Deus e com Deus, onde o ser humano pode ser radicalmente humano,
por isso totalmente livre, livre para plasmar a sua vida, construir a sua
figura e viver de festa em festa. A Igreja antiga, especialmente a oriental, a
ortodoxa, elaborou toda uma reflexão do céu como uma dança celeste e Deus como
o Grande Dançarino. Criou o universo num momento auge de sua dança: jogou para
um lado as galáxias, para outro as estrelas, depois inventou a fauna e a flora
e num passe mágico de dança, o ser humano. Tudo é fruto do Deus dançarino. Não
há festa sem bebida e sem comida. Elas expressam a vida. Não bebemos nem
comemos para matar a fome. Isso é outro momento. Bebemos e comemos para
celebrar. E toda festa tem que ter abundância de comida e bebida, senão não é
festa. Mesmo nas comunidades em que trabalhei, muito pobres, as festas eram
feitas com abundante pipoca e coca-cola, a ponto de sobrar. Tem que sobrar
senão a festa não é boa. O carnaval tem sempre excessos. Mas eles não devem ser
entendidos moralisticamente. Eles tem uma função humana: violar a ordem,
afastar os limites, exorcizar os controles, pois tudo isso foi inventado pelos
seres humanos, especialmente, pelos que tem poder de se impor aos outros. No
carnaval se volta ao caos originário. Ele nunca é caótico, mas criativo. No
carnaval todos tem a sensação: finalmente estamos livres, podemos viver
como gostaríamos, podemos inverter os papéis porque eles não passam de
papéis. O carnaval é uma metáfora do que pode ser a humanidade um dia
reconciliada e feliz.
Mas como tudo o que é sadio pode ficar doente, assim
no carnaval há doenças no sentido de alguns extrojetarem seu exibicionismo, se
embebedarem em demasia e aproveitarem a liberdade reconquistada para se
vingar dos desafetos. Mas essa é uma patologia, uma doença. E toda doença
remete à saúde. Quer dizer, o carnaval é algo saudável especialmente em
sociedades de grande desigualdade. No carnaval as desigualdades caem. Todos
estamos juntos para festejar, comer e beber numa ilimitada fraternidade.
Eu não posso me imaginar o céu senão como um eterno
carnaval ou então uma luminosa virada de ano na praia de Copacabana, na qual
todos se confraternizam, conhecidos e desconhecidos, chorando de alegria pela
beleza dos fogos. Quando alguém chega ao céu, imagino eu, Deus lhe prepara como
recepção um carnaval ou uma festa de virada de ano com fogos e luzes sem fim. E
a alegria começará e o bom é que será então eterna. Bom carnaval para quem
gosta.
Lembram-se de Leonardo Boof?
Carnaval: “adeus, carne”, uma metáfora do reino da liberdade