quarta-feira, 7 de junho de 2017

Na Vertigem da Traição - as primeiras entrevistas

Hoje, com muito calor, na Praça Amarela da Feira do Livro de Lisboa, para gravar com Ana Daniela Soares para o «Todas as Palavras», da RTP3, e para o «À Volta dos Livros», da Antena1. Só serão transmitidas em Julho, quando o livro estiver no mercado. É sempre um prazer ser entrevistado por alguém que faz o trabalho de casa, ou seja, lê os livros.



segunda-feira, 5 de junho de 2017

Francisco Martins Rodrigues sobre Manuel Domingues

Um texto longo, mas que vale bem os minutos que leva a ler. É de 1997, mas só hoje o conheci. Contém algumas imprecisões, que resultam de o autor não conhecer o processo que correu na PJ aquando do crime de que foi vítima Manuel Domingues. Ainda assim, é muito interessante particularmente pela desmontagem arrasadora que FMR faz dos documentos emitidos pelo PCP após o crime, que procuravam incriminar MD.
Aqui fica:   


Manuel Domingues, espião titista?
por Francisco Martins Rodrigues

Fonte: https://franciscomartinsrodrigues.wordpress.com/2017/04/28/manuel­domingues­espiao­titista/

(Elementos de história do PCP e da resistência antifascista)
Passado quase meio século, muito pouco se sabe acerca da execução sumária do dirigente do PCP Manuel Domingues, acusado de estar ao serviço da PIDE. Talvez o clima da “guerra fria” dê pistas para a solução do mistério. Em 5 de Maio de 1951, a imprensa noticiava o aparecimento num pinhal de Belas, nos arredores de Lisboa, do cadáver dum homem, assassinado a tiro. Após alguns dias de especulações em torno do “misterioso crime de Belas”, fez-­se silêncio total sobre o assunto; percebeu-­se depois porquê – a PIDE identificara o cadáver e tomara o assunto em mãos.

UM SUPER-ESPIÃO
0 morto era, como veio a saber-­se, Manuel Domingues, dirigente do PCP. E o silêncio do partido dava a entender que a responsabilidade do crime não cabia desta vez à polícia política. Foi preciso passar um ano para que, numa reunião do Comité Central (1), o membro do Secretariado “Gomes” (2), num informe sobre “Vigilância revolucionária”, se referisse à “expulsão” de Manuel Domingues, classificando-­o como “espião e provocador” e atribuindo-­lhe a principal responsabilidade pela onda de prisões que quase desmantelara o partido nos anos anteriores. Sobre a execução em si, nem uma palavra – nunca foi norma do PCP reivindicar actos dessa natureza ­, mas ninguém teve dúvida de que Domingues fora abatido a tiro por ordem da direcção do partido. Finalmente, meses depois, num folheto editado pelo Secretariado do PCP, intitulado Lutemos contra os espiões e provocadores, foi desenvolvida a “acta de acusação” contra Domingues. Ele teria estado ao serviço da polícia fascista, infiltrado no aparelho clandestino desde, pelo menos, 1937, ano em que regressou clandestinamente de Espanha e, “inexplicavelmente”, foram presos todos os outros militantes entrados em seguida, e que ele conhecia. Chamado à direcção do partido, teria entregue uma tipografia à polícia. Durante a guerra, em França, teria sido libertado pelos nazis dum campo de internamento para continuar a sua missão tenebrosa; muito provavelmente, teria passado ao serviço dos americanos. Como isto era ignorado devido às descontinuidades na actividade da direcção causadas pelas prisões, Domingues pudera guindar­-se no pós-guerra a altas responsabilidades no comité central. O cume e fim da sua carreira chegara em 1949, com a denúncia à PIDE de todo o Secretariado do CC e tipografia do Avante, proeza que acabara por o desmascarar. Dum cinismo e de uma frieza fora do comum, oferecia-­se para desempenhar as tarefas perigosas a fim de saber sempre mais e trair mais camaradas. Por vezes, relatava ter encontrado casualmente na rua pides e outros inimigos do partido, os quais contudo não o prendiam nem o denunciavam… Parecia mesmo ter prazer em semear indícios incriminatórios contra si próprio e perguntava com ar ingénuo se não pareceria estranho todos serem presos à sua volta e só ele escapar… Enfim, um autêntico super-espião, sem termo de comparação com os outros casos de provocação e traição que o folheto historiava.

DEDUÇÕES NÃO PROVADAS
Este rol de acusações é contudo de uma fragilidade espantosa. Nem uma só prova firme é citada. Tudo se baseia no facto de serem por ele conhecidas as instalações que a PIDE ia assaltando; mas se outros as conheciam, porque não considerá­-los igualmente suspeitos? E porque não admitir que os desastres se devessem ao trabalho de vigilância da PIDE, a erros conspirativos, etc.? Em 1961, por exemplo, os membros do Secretariado do CC viriam a ser presos numa operação policial simultânea em locais diversos e, que se saiba, nunca esse desastre foi atribuído a uma denúncia de alto nível. Passemos em revista o fundamento das acusações: Domingues era provocador porque em 1938 colaborara no Secretariado com Vasco de Carvalho, Cansado Gonçalves e Armando de Magalhães, “elementos policiais e provocadores, escorraçados do partido” – os quais, contudo, nessa época eram dirigentes do partido, de pleno direito (aliás, mais tarde foi-­lhes retirada a classificação de provocadores). Também nesse ano, tratara com um enfermeiro do Aljube da fuga de Pável, mas durante a viagem dos três para França, “o enfermeiro afirmou que um dos dois (Domingues ou Pável) estava ao serviço da polícia”. E uma simples afirmação dum empregado da PIDE bastava para incriminar dois militantes? De outra vez, assegurou a um membro do Secretariado não ser suspeita uma mulher vista nas imediações de uma tipografia clandestina, mulher que “nesse mesmo dia à tarde tomou novamente o mesmo meio de transporte que ele”. Concludente, de facto! Ainda de outra vez, quando do assalto a uma tipografia, contou ter escapado à justa à prisão por ter sido avisado por uns vizinhos. Só podia ser artimanha de provocador! Domingues “sabia que um camarada do Secretariado ia a determinado local para realizar uma tarefa muito importante. Pois quando esse camarada tomou um meio de transporte nesse local, ouviu que falavam no seu nome, o que era muito de estranhar. Mais tarde veio a saber-­se que uma das pessoas presentes nesse meio de transporte era da PIDE”. Mas então porque é que esse elemento da PIDE não tentou prender o dito camarada? E assim por aí fora. Domingues comentara, a propósito de um indivíduo que roubara o partido: “O que ele precisava era de um tiro na cabeça” – mas quantos militantes não diriam o mesmo em circunstâncias semelhantes? Tomara a defesa dum elemento estrangeiro sobre quem recaíam fortes suspeitas de provocação, “porque receava que se descobrissem as suas ligações internacionais com elementos provocadores” – mas ao defendê-­lo não estava precisamente a chamar as suspeitas sobre si próprio? Ao ver acumularem-­se as suspeitas à sua volta, teria contactado militantes para tentar arranjar um emprego – mas não era este um comportamento inverosímil da parte dum espião profissional com uma dúzia de anos de carreira? Mostrava-se nervoso e abatido ao ver­se alvo das suspeitas dos seus camaradas? Era “porque temia ser desmascarado a todo o momento.” Isto sem contar que Domingues era “vaidoso e mentiroso” e em jovem fazia “vida de café, prostituição e noitadas”… A impressão que se colhe da leitura deste libelo que se pretende esmagador é que a quantidade de acusações serviu para tentar colmatar a sua falta de credibilidade. Se a direcção do PCP tivesse realmente provas da traição de Domingues não teria amontoado “provas” tão pouco convincentes, que mais parecem uma colecção de indícios e suposições, recolhidos já depois da sua execução, junto de militantes alarmados, predispostos a confirmar a tese já estabelecida pelo Secretariado. De resto, é inevitável a pergunta feita na altura por alguns que o tinham conhecido de perto: como é que um militante que semeava à sua volta um tal rasto de prisões, um elemento cuja “baixa moral” dera origem a ser por duas vezes criticado no Militante (4), pudera subir a tão grandes responsabilidades e manter-­se nelas? Não estaria o Secretariado a arranjar um bode expiatório para falhas conspirativas, se calhar a verdadeira origem da série de prisões? Não se podendo descartar a hipótese de Domingues ter sido preso em qualquer altura e se ter posto ao serviço da PIDE, o quadro que ressalta da atropelada lista de acusações do Secretariado é muito mais o de um militante cansado, desmoralizado pelos seus próprios erros, pelo descalabro do partido e pelas suspeitas que sente existirem a seu respeito, que quer sair da clandestinidade, voltar à vida legal, obter um emprego, escapar à PIDE e aos seus camaradas. Manuel Domingues pode ter estado ao serviço da PIDE; mas o PCP não apresentou até hoje qualquer prova convincente nesse sentido.

ESTRANHO SILÊNCIO
Facto surpreendente, a partir de 1954 as publicações do PCP tornam-­se silenciosas a respeito dum caso que, a ser confirmado, teria o valor dum alerta permanente aos militantes comunistas, a todos os antifascistas. Numa busca a informes a reuniões de direcção, artigos e folhetos dedicados ao tema de defesa conspirativa (5) não encontrei mais nenhuma referência ao “espião” Manuel Domingues. Como se tal nunca tivesse acontecido. Tem que se convir que é estranho. Mais. Álvaro Cunhal mostrou-­se, pelo menos em duas ocasiões, extremamente reservado quanto ao assunto. Em 1958, no forte de Peniche, declarou a Joaquim Carreira (6), que o inquiria acerca da morte de Domingues, que, por na altura já estar preso, o assunto não lhe passara pelas mãos e nada podia adiantar. Que Cunhal nada tivesse a ver com o processo é óbvio, uma vez que na época se encontrava sob rigoroso isolamento na Penitenciária de Lisboa; já parece menos crível que não tivesse recebido posteriormente no forte de Peniche nenhuma informação sobre um caso de tal gravidade. A resposta dada a Carreira parece indicar alguma reserva em adoptar a tese oficial do Secretariado de que Domingues fosse um espião. De resto, essa reserva foi por ele claramente manifestada, ainda no forte de Peniche, no ano seguinte, num círculo restrito de militantes, em conversa a que eu próprio assisti: custava­lhe a crer que Manuel Domingues tivesse sido um provocador. Assim, sem mais. Conhecido o rigor de regra no partido, que exigia a cada militante o acordo expresso com as decisões da direcção, este desabafo de Cunhal perante camaradas menos responsáveis é significativo. Somos levados a pensar que, não tendo vivido o clima de pânico e suspeição de 1950­52 por se encontrar na prisão, Cunhal encarava com cepticismo as conclusões do Secretariado: talvez o conhecimento que tinha de Domingues não quadrasse com a imagem que dele era dada, dum espião consumado. Já depois do 25 de Abril, apesar do acesso que sobretudo o PCP conseguiu aos arquivos da PIDE, o enigma continuou por esclarecer. Informes de congressos, artigos de história do partido e da repressão ignoram pura e simplesmente o caso Manuel Domingues. Única excepção, que eu saiba, uma brevíssima referência num texto de José Magro: “Apareceu morto um aventureiro e ex­-funcionário do Partido”…(7) . E também esta menção aparentemente casual serve o objectivo de apagar o caso Domingues: chamando-­lhe simplesmente “aventureiro” dá-­se a conhecer aos membros do partido, não oficialmente e só nas entrelinhas, que Domingues, afinal, não era espião mas que também não merece reabilitação porque não era boa rês… Tudo parece pois indicar que a direcção do PCP já não sabe o que fazer com as acusações de 1952 mas também não quer evocar as circunstâncias que a teriam levado a matar um militante por engano.

UMA VIDA AGITADA
Manuel Domingues, o camarada Luís, antigo operário da Marinha Grande, tivera papel activo no levantamento de 18 de Janeiro de 1934, ao lado de Manuel Esteves de Carvalho, José Gregório e outros. Pelo relevo ganho naquela jornada e pelo seu espírito lutador, foi enviado para a União Soviética com Gregório, tendo ambos frequentado um curso de marxismo­-leninismo em Moscovo, destinado a prepará-­los ideologicamente para futuros cargos dirigentes (significativamente, o folheto de 1952, acerca deste período da sua vida, diz apenas que “fugiu para o estrangeiro”). Depois de ter desempenhado tarefas não especificadas em Espanha durante a guerra civil, veio para Portugal, onde fez parte durante alguns meses do Secretariado central do partido (em 1938). A experiência não foi boa; a situação organizativa do partido era caótica e Domingues foi de novo enviado em missão para o estrangeiro. Preso em França durante a guerra mundial e internado num campo de concentração, ter-­se-­ia evadido (segundo a sua versão), voltando clandestinamente a Portugal em fins de 1944. Do que teria sido a sua vida nesse intervalo de tempo nada se sabe, ou, pelo menos, nada foi divulgado pela direcção do PCP mas é­-nos dito que veio “devidamente credenciado por um Partido irmão.” (8) Em 1945, com o rápido alargamento da influência do partido, Domingues passa a integrar o Comité Central e é cooptado para o Bureau Político do CC, organismo de existência efémera mas que então se tentava projectar como verdadeira direcção permanente do partido. Aí enfileira, ao lado de Cunhal, Guedes, Militão, como um dos principais dirigentes comunistas da época. Que não é uma escolha ocasional revela-­o o facto de, no ano seguinte, o IV Congresso do partido o ter confirmado como membro do Comité Central. E em funções de controlo do “aparelho técnico” central (tipografias clandestinas e outras instalações de apoio da direcção) se mantêm até 1949. Nesse ano, quando cai o núcleo central do aparelho clandestino e surgem suspeitas a seu respeito, é colocado em tarefas sucessivamente menos responsáveis até ser completamente afastado da actividade e, por fim, expulso como “provocador” e assassinado. PÂNICO Havia motivos para o ambiente de alarme e suspeita reinante no PCP em 1949-­51. Em vagas sucessivas, a PIDE assaltava as casas ilegais, prendendo dezenas de militantes responsáveis. Desde logo, Álvaro Cunhal e Militão Ribeiro, os elementos­ chave do Secretariado, mas também Manuel Rodrigues da Silva, José Martins, Joaquim Campino, Francisco Miguel. Dois outros dirigentes, José Gregório e Manuel Guedes, conseguiram escapar à justa, com as casas já localizadas pela polícia. Mas muitos outros funcionários caíram: Sofia Ferreira, Dias Lourenço, Jaime Serra, Casimira Silva, Luísa Rodrigues, José Moreira (assassinado), Colélia Fernandes, José Magro, Mercedes e Georgete Ferreira, Severiano Falcão, Alcino de Sousa, Salvador Amália, Júlio Paour… A prisão de Cunhal, a morte de Militão Ribeiro, a debandada de centenas de militantes e o desmantelamento de organizações inteiras, punham termo a uma década de crescimento incessante durante a qual o PCP se prestigiara à frente de grandes greves e manifestações. Estavam chegados “os tempos de mais ampla e severa repressão do comunismo”, que Salazar prometera numa das suas arengas (9). Politicamente, era também o descalabro. Os democratas, que se tinham encostado à capacidade mobilizadora e organizativa dos comunistas durante a guerra, ao verificar que ingleses e norte-­americanos não admitiriam um levantamento contra Salazar, adaptavam-­se agora aos novos tempos e alinhavam pela histeria anticomunista da “guerra fria”: passaram a recusar solidariedade ao partido e, não raro, a atacá­-lo publicamente. De golpe, afundavam-­se as perspectivas da unidade antifascista do pós­guerra e do próprio papel do PCP como principal força da oposição. O espírito de vigilância exacerbado pelo perigo criou na direcção do partido um ambiente propício à busca de “inimigos”. Naturalmente, era impossível evitar que, sob a perseguição da PIDE, suspeitas infundadas recaíssem sobre este ou aquele militante. Todos os que fizeram a experiência da actividade clandestina sabem que, no clima de insegurança permanente, não há nenhum militante cujos actos não se prestem a interpretações suspeitas se se começar a associar todas as circunstâncias estranhas em que esteve envolvido, os seus actos inexplicados, os deslizes conspirativos. O risco de eventuais desconfianças infundadas sobre militantes honestos era afinal um dos preços a pagar pela luta clandestina, com as suas incertezas, a sua crueldade, as suas armadilhas. Aqueles que pregam moral sobre o assunto fingem ignorar que sem esse combate tenebroso, quase corpo-­a-­corpo com a PIDE, não podia haver resistência antifascista digna desse nome (10) . Seja como for, é certo que na época a direcção do PCP, abalada pelos golpes da polícia, pela ausência de perspectivas políticas, pelo clima internacional de caça aos comunistas, cedeu à paranóia da perseguição. Militantes foram publicamente denunciados por pequenas faltas, acusados sem provas, sujeitos a julgamentos sumários, expulsos. Domingues seria um caso extremo nesta difícil experiência.

LIGAÇÕES PERIGOSAS
Parece todavia haver algo mais, que impediu até hoje a direcção do PCP de reabrir o dossiê. Algo que tem a ver, ao que tudo indica, com as melindrosas implicações internacionais do caso. De facto, o pano de fundo das enoveladas acusações contra Domingues é o pressuposto de que ele fora recrutado como espião no estrangeiro: “Se esta prisão [no campo de internamento em França] é verdadeira, só tomando compromissos com a Gestapo ele poderia ter sido liberto, como fizeram os espiões mandados pela Gestapo para a Jugoslávia” (p. 25). “Está hoje claro para o Partido que ele fez parte de uma quadrilha de provocadores e de espiões recrutados pela Gestapo nos campos de concentração e, mais tarde, enviados pela espionagem norte-­americana para diversos países, sobretudo para aqueles países, como Portugal e Espanha, onde os partidos comunistas vivem na mais feroz das ilegalidades” (p. 26). Domingues cúmplice dos jugoslavos – eis o fulcro da questão: “O papel de primeiro plano desempenhado pela infame camarilha de Tito em todos os actos de provocação e espionagem contra as Democracias Populares têm a sua origem no facto de numerosos espiões americanos, provocadores e trotskistas (entre os quais mais de 150 indivíduos libertos dos campos de internamento franceses em 1941 e enviados pela Gestapo para a Jugoslávia para aí fazerem espionagem), se terem apoderado do poder após a libertação da Jugoslávia” (p. 11, sublinhado meu). Temos assim que Domingues se terá evadido (ou sido solto) do campo francês de internamento, talvez em conjunto com um grupo de jugoslavos e que isto veio a ser-­lhe fatal mais tarde. É ainda o mesmo documento que afirma que “0 Partido Comunista Francês, durante a Resistência, denunciou­-o [Manuel Domingues] como um provocador, como um elemento que tinha ligações com a Gestapo, facto que só chegou ao conhecimento do nosso Partido muitos anos depois, em 1952”. (p. 24). Em face disto, entende­-se melhor a precipitação com que o Secretariado encontrou indícios incriminatórios em todos os actos passados de Manuel Domingues; “descobria-­se” agora que ele era espião há vários anos e que viera para Portugal como espião. Vista a esta nova luz, toda a sua actividade anterior não passava de uma manobra odiosa. Só a morte podia castigar tal perversidade.

“UM BANDO DE GANGSTERS”
O pior foi que, passados apenas quatro ou cinco anos, a denúncia dos “espiões” jugoslavos foi declarada um erro pela direcção soviética. De chofre, os partidos que tinham pressurosamente aderido à campanha de Moscovo e tinham “descoberto” os seus próprios “espiões” viram ser­-lhes tirado o tapete debaixo dos pés. Recordando: Staline começara por formular em 1948 algumas críticas ao partido jugoslavo, críticas cujo fundamento, aliás, se comprovou mais tarde: primeiro, que as reformas “autogestionárias” favoreciam o crescimento da economia capitalista privada nas cidades e nos campos; e segundo, que, com a sua “opção democrática”, o marechal Tito ingressava, prosaicamente, na esfera de influência norte-­americana, em busca de apoios financeiros e militares. Mas o que estava em jogo não era uma simples divergência política. Todo o controlo da URSS sobre a Europa oriental ficava ameaçado de colapso pela defecção jugoslava. A rebeldia de Tito era estimulada pelos Estados Unidos, calorosamente saudada pela social-­democracia internacional, aplaudida pelos trotskistas como uma audaciosa experiência não­burocrática. Temerosos de que o campo das “Democracias Populares” do Leste europeu caísse como um castelo de cartas, os dirigentes da URSS passaram aos “grandes meios”. A partir de 1949, quando se tornou evidente que a direcção jugoslava optara definitivamente pela aproximação às potências ocidentais e se tornava um perigoso “cavalo de Tróia” no campo das “Democracias Populares”, foi posta em movimento pelo partido comunista da URSS e pelo KGB uma formidável campanha de propaganda. Com a experiência adquirida nos processos de Moscovo, não foi difícil reconstruir a biografia de Tito, Djilas, Rankovitch, etc., de modo a “provar” que tinham sido de longa data provocadores e agentes empedernidos do imperialismo. A sua resistência ao nazismo fora uma fraude. Segundo um informe de Molotov, o partido jugoslavo caíra nas mãos dum “bando de gangsters”. O objectivo desta campanha era obviamente fazer o vazio à volta do regime titista e criar um ambiente propício a levantamentos internos ou mesmo a uma invasão. Logicamente, o passo seguinte foi extirpar o tumor. Uma frenética investigação policial estendeu-­se a todo o movimento comunista, em busca das “ramificações da camarilha titista”. Tratava-­se de desmascarar e isolar todos os que manifestassem simpatia pelas posições políticas de Tito ou que no passado lhe tivessem estado próximos. Pressionaram-­se os partidos comunistas, particularmente os das “democracias populares” da Europa oriental, para se depurarem de elementos “suspeitos” que pudessem estar conluiados com a direcção jugoslava ou advogar a tolerância para com ela. Assim surgiram os processos que acabaram no fuzilamento de Slansky, Rajk, Rostov e muitos outros comunistas desses países, condenados não apenas como simpatizantes da via titista (que provavelmente eram) mas como espiões, agentes do antigo regime, colaboracionistas no tempo da guerra… Só a infamação total servia os propósitos de Staline, porque no regime “soviético” agonizante, a luta política cedia o lugar ao enredo policial.

A VERDADE A QUE NÃO TEMOS DIREITO
O PCP encontrava­-se nessa época, pelo próprio isolamento resultante da clandestinidade, um pouco ao abrigo do fervilhar de intrigas e suspeições do Cominform, mas não descurava nem por um momento a solidariedade incondicional para com a URSS. O desmascaramento de eventuais simpatizantes do titismo terá surgido como uma prova palpável de “firmeza”, isto é, de aprovação explícita à depuração em curso. E aqui, as suspeitas que, devido à onda de prisões, possivelmente já pairavam em torno da lealdade de Domingues terão ganho um tremendo impulso ao ser associadas aos seus contactos fora do país. Ele fizera dez anos de militância no estrangeiro, em lugares e momentos particularmente perigosos: primeiro na União Soviética, no início dos processos de Moscovo; depois, na guerra de Espanha, em contacto com as brigadas internacionais; por fim, na França ocupada, durante praticamente todo o tempo da guerra. Se admitirmos por hipótese que tenha saído do campo de internamento juntamente com jugoslavos (em 1941?) e que a eles tenha estado ligado durante o resto da guerra; ou que já antes tivesse sido referenciado pelo KGB por camaradagem com jugoslavos nas Brigadas Internacionais em Espanha; ou até, pior ainda, que, quando da sua estadia em Moscovo, tivesse feito comentários imprudentes acerca dos grandes processos que então começavam, pode dizer-­se que a sua denúncia como espião estava certa. No ambiente de caça às bruxas suscitado pela “guerra fria”, seria grande milagre que um militante comunista com um percurso destes não saísse chamuscado. No auge da campanha anti-titista e da repressão interna, quando a suspeita de uma infiltração envenenava a atmosfera na direcção do partido, a questão ter­-se-­lhes­-á posto: “Se todos estão a descobrir espiões, seremos ingénuos ao ponto de acreditar que só o PCP não os tem?” Aqui, a comunicação pelo PC Francês de que Domingues fora considerado provocador no tempo da guerra pode ter sido o elemento decisivo que faltava para ser dado o passo final: a morte do “espião”. É certo que o folheto que vimos comentando afirma que a denúncia do PCF só aqui foi recebida “em 1952”, ou seja, no ano seguinte à morte de Domingues. Mas talvez não seja excessivo admitir que essa comunicação tenha chegado antes (em 1950 ou 1951) e que a data tenha sido “corrigida” no folheto para ressalvar a “vigilância” do partido e este não aparecer na dependência de informações vindas do exterior. É decerto apenas uma hipótese. Mas continuaremos no terreno das hipóteses enquanto os directos intervenientes não decidirem relatar o que sabem. Uma coisa é certa: enquadrada a expulsão e execução de Manuel Domingues na campanha de caça aos “espiões titistas” de 1950­-53, torna-­se compreensível por que foi a direcção do PCP forçada a fazer silêncio sobre o assunto, até hoje. As acusações contra Tito foram retiradas após a morte de Staline, como uma malévola invenção de Béria (ele, sim, “espião do imperialismo” e por isso fuzilado); logo, Domingues deixou de ser agente dos nazis e norte-­americanos; por outro lado, a direcção do PCP não dispunha de elementos que provassem a colaboração de Domingues com a PIDE – o processo teve que ser encerrado. Com uma lógica muito sua, os dirigentes do PCP acharam que mantendo um mutismo total sobre o assunto poderiam livrar­se de perguntas incómodas. E de facto assim foi. Mas, por estas e por outras, não há meio de o PCP conseguir escrever a sua própria história…

NOTAS
1 IV Reunião Ampliada do CC, de Abril de 1952, noticiada no Avante n º 168, de Junho desse ano, e no Militante nº 68, do mesmo mês.
2 Pseudónimo de Joaquim Pires Jorge, que teve durante algumas décadas funções dirigentes no PCP.
3 Lutemos contra os espiões e provocadores. Breve história de alguns casos de provocação no PCP. Edições Avante, Dezembro de 1952.
4 Id., p. 31.
5 Nomeadamente: “Sobre a organização e defesa do trabalho de direcção”, resolução do CC (Militante 121, de Dezembro de 1962), “Para uma melhor defesa do Partido”, intervenção de “Ferreira ” à reunião do CC de Agosto de 1963, “Defender o Partido, primeira tarefa de todo o Partido e de cada militante”, resolução do CC (Militante 125, Outubro de 1963), Documentos do CC do PCP, 1965/74, Edições Avante, 1975, “A Defesa acusa” (folheto), edições Avante, Abril de 1969; e os artigos: “A defesa do Partido é inseparável do reforçamento da organização”, (Militante 102, de Outubro de 1959), “Ensinamentos de uma série de traições” (Militante 110, Maio de 1961), “Por uma viragem radical no trabalho conspirativo” (Militante 104, Maio de 1960), “Sobre a defesa do Partido” (Militante 118, de Setembro de 1962), “Lutemos intransigentemente contra a traição” (Militante 119, de Outubro de 1962), “Guerra aos traidores” (Militante 131, de Novembro de 1964), “Militão Ribeiro, herói comunista” (Militante 141, de Janeiro de 1966), “50 ! aniversário do PCP” (Avante 427, de Março de 1971), etc., etc.
6 Segundo testemunho deste em entrevista gravada em 1996. Joaquim Carreira, natural da Marinha Grande, foi funcionário do PCP nos anos 50­70.
7 José Magro, Cartas da Prisão. Ed. Avante, Lisboa, 1975.
8 Lutemos contra…, p. 24.
9 Discurso às comissões da União Nacional, 12 de Dezembro de 1950.

10 Pensamos nas demarcações dum Mário Soares e de tantos outros democratas que hoje apresentam como grandes batalhas da clandestinidade as suas prudentíssimas escaramuças com a PIDE. Política Operária nº 58, Jan­Fev 1997

segunda-feira, 29 de maio de 2017

Revolucionário Improvável

Amanhã à tarde ocorrerá a apresentação de Revolucionário Improvável, da autoria de Pedro Cabrita, com prefácio de minha autoria. Trata-se da história de vida de João Martins, mais conhecido por Cristina, que pelos anos 60 e 70, integrou o grupo de Palma Inácio em algumas das operações armadas por este levadas a cabo contra o regime. 

quinta-feira, 18 de maio de 2017

Na Vertigem da Traição V


Para já, registem estas fotografias. Vão fazer história, digo eu, que sou modesto.

Um espião ou agente da polícia política, ou será um militante clandestino? Certo é que está nos Restauradores a ver como param as modas, digo eu, que gosto de dizer coisas.


Uma perseguição de carochas, algures em Monsanto. Digo eu, que acho que conheço as estradas.

Ambas têm que ser trabalhadas, claro, e serão. Depois logo se vê. Talvez a de cima dê capa e a de baixo contracapa. Não sei. É só uma ideia. 

segunda-feira, 15 de maio de 2017

Na Vertigem da Traição IV

Tenho o Manuel Domingues (MD) como um homem de honra. Na minha opinião morreu por isso mesmo, pelo sentido do dever que esteve sempre presente, no caso, ao defender os seus camaradas mais humildes, mesmo indo contra a cúpula do partido. Foi aí que ele se perdeu. Por Fevereiro/Março de 1949, numa reunião do Comité Central, bateu-se contra a expulsão de camaradas seus da Marinha Grande, que acabaram expulsos, entre eles Joaquim Gregório, irmão do José Gregório, que pertencia ao mesmo Comité Central e foi figura grada até certa altura (outro assunto interessante). Nessa reunião, Manuel Domingos ficou sozinho, o que lhe foi fatal. Depois foi sempre a piorar, com o partido a definhar devido a muitas cedências à PIDE, mas também em razão dos olhos do regime, disseminados um pouco por todo o lado. Muito disto jogou contra MD, que, pela sua posição em 1949, passou a ser um alvo preferencial. Por estes anos o partido entrou em enorme desorientação e surgiu a vertigem da traição. Na verdade, a PIDE nunca esteve tão perto de ganhar a guerra. Foram cometidos alguns erros graves, fruto dessa vertigem da traição, erros que depois foi preciso justificar. Aí surgiu, publicado pelo PC, claro, o «Lutemos Contra os Espiões e Provocadores», que é, assim o entendo, a principal peça de acusação contra o PC, no que ao crime de MD respeita. Manuel Domingues tinha defeitos, era um homem, e eu desconfio dos homens que não os têm, mas ser traidor não me parece que fosse um deles, longe disso, até por tudo quanto sabemos dele. Estou a gostar muito da personagem. Falta um trabalho académico sobre o homem e o seu tempo. Fica o desafio. A sua história de vida bem o merece, bem como a história da sua morte - e nós também.



                                                                    Manuel Domingues - Pouco antes de ser assassinado



(voltarei em breve)

domingo, 14 de maio de 2017

Vertigem da Traição III

Vertigem, s. f. estado mórbido, durante o qual se tem a sensação de falta de equilíbrio e em que todos os objectos parecem girar à nossa volta; tontura; estonteamento; delíquio; vágado; desmaio; (fig.) acto impetuoso e irreflectido; tentação súbita; desvario. 







Traição, s.f. acção ou efeito de trair, intriga; deslealdade; aleivosia; perfidia; cilada; infidelidade.

Na Vertigem da Traição II - Provas


As primeiras provas: o gin estava óptimo; o texto não sei.  

segunda-feira, 1 de maio de 2017

Na Vertigem da Traição I


Na Vertigem da Traição está por aí não tarda. 
Eis algumas fotos de páginas do processo-crime que inspirou a obra de ficção.






Antigo SS funda a Frente Nacional com Le Pen

Para que não haja dúvidas, porque este video as dissipa.
Não acredito que nazis se convertam em democratas.
Eis a prova.

https://vimeo.com/189604726

sábado, 29 de abril de 2017

A última entrevista de Nuno Brederode dos Santos

Agora que a morte cumpriu o seu desiderato em Nuno Brederode dos Santos, deixo uma muito interessante entrevista, penso que a última, que Anabela Mota Ribeiro lhe fez, bem como à sua irmã, Maria Emília Brederode dos Santos, no último Verão.


http://anabelamotaribeiro.pt/maria-emilia-e-nuno-brederode-santos-119043

O cabo que fez a diferença nas operações militares do 25 de Abril

Houve um cabo que fez toda a diferença nas operações militares desencadeadas para derrubar o Estado Novo, o cabo de comunicações instalado nas últimas horas no posto de comando do Regimento da Pontinha. Eis um documentário muito interessante e pormenorizado sobre o tema.  

http://www.rtp.pt/play/p3438/a-voz-e-os-ouvidos-do-mfa

quarta-feira, 26 de abril de 2017

No Limite da Dor em Santarém e Alenquer

Hoje será em Santarém, no Estúdio Mário Viegas; no sábado (a que se refere o cartaz) é a vez de Alenquer, na sua Bibioteca Municipal. O périplo pelo país, começado há três anos, continua. O pretexto é o livro, mas o objectivo é mesmo falar um pouco do aparelho repressivo do Estado Novo e do mal que causou. Calar nunca! - deve ser e é a máxima.  



sábado, 22 de abril de 2017

Benfica-Sporting, o desporto e a estupidez


Sporting e Benfica jogaram mais uma vez, desta feita em Alvalade. O jogo acabou empatado a um golo, permitindo que o Benfica continuasse em primeiro lugar, a quatro jornadas do fim. A derrota poria em perigo o lugar cimeiro na classificação e, dado faltar tão pouco para que o campeonato termine, a eventual conquista do tetra por parte do clube da águia, o primeiro da sua história. 
Mas nada disto pode ter qualquer interesse quando um adepto morre por questões de disputa entre claques. Na madrugada que antecedeu o jogo, por força da pressão que é exercida pelas direcções dos clubes e altamente fomentada pela comunicação social, um adepto de um clube foi atropelado mortalmente por, alegadamente, gente do outro clube. 
Nesta noite, a que se seguiu ao jogo, toda a gente fala dos 90 minutos em campo, dos jogadores, dos golos e principalmente do árbitro e dos seus eventuais erros. Não ouço ninguém a condenar não só a morte de um homem, mas principalmente as condições que a geraram. Tudo se poderá repetir e provavelmente ainda com mais gravidade. 

terça-feira, 18 de abril de 2017

Um novo romance

É sempre diferente o dia em que um escritor entrega ao seu editor um novo livro. Foi hoje. Particularmente quando há 4 anos que não publico um romance e quando a obra que entreguei me levou dois anos da minha vida, vividos muito intensamente. Estou cansado. Se o escritor se sentisse devidamente compensado, mandava o trabalho às malvas e ia por aí, só mesmo para dormir, ver filmes e ler romances, que é coisa que não tenho feito nos últimos tempos. 
Hoje, 18 de Abril de 2017, entreguei o original de um novo romance que me deixou muito feliz de o ter construído. A ele voltarei brevemente.

Entretanto, fiquei tão estasiado que não podia regressar a casa como se de um dia normal se tratasse, porque não era.
Fui ao Monumental ver um documentário sobre as gravações do Apocalypse Now e bebi umas cervejas sozinho, que é coisa que normalmente não aprecio, mas que fiz e desta vez gostei.  

No Limite da Dor e Mulheres da Clandestinidade em Beja


É já na 6ª à noite, na Biblioteca José Saramago em Beja. Estarei muito bem acompanhado com a minha caríssima co-autora Ana Aranha e com Vanessa Almeida, autora do Mulheres da Clandestinidade, além, claro, do editor das duas obras, Marcelo Teixeira. Os livros são apenas pretextos para uma boa conversa sobre temas que não podem morrer. Apareçam. 

segunda-feira, 17 de abril de 2017

Lisboa estava “de joelhos”. Hoje bate Berlim, Barcelona e Londres



Que raio se passa com a nossa capital?



Lisboa estava “de joelhos”. Hoje bate Berlim, Barcelona e Londres: Domingo foi a vez do emThe Guardian/em tecer loas à capital portuguesa. O que é que, segundo o diário britânico, faz de Lisboa a

domingo, 16 de abril de 2017

Banda do Casaco - Geringonça



Aqui vos deixo aquela que poderia ser uma bela banda sonora para um projecto político inovador, mas que está a resultar, para azia de muitos. A saudosa Banda do Casaco, com a belíssima Gabriela Schaaf. Do album «Hoje há conquilhas amanhã não sabemos», de 1977.

Machadada na Democracia

Na Turquia o Sim às alterações constitucionais venceu (à justa mas venceu).

É talvez a derrota da democracia mais marcante nesta parte do mundo. 
É mesmo uma verdadeira machadada na democracia da Europa. 
Entre os migrantes turcos na Europa o SIM chegou quase aos 60%, enquanto na Turquia não passou dos 51,3%. Como entender isto? 

Resta-nos ver o copo meio cheio: que isto corra tão mal que sirva de vacina aos outros povos europeus - e mundiais, já agora. A democracia e a liberdade é uma construção que nunca deve ser dada por concluida. 

quarta-feira, 12 de abril de 2017

No Limite da Dor na Biblioteca José Saramago, em Loures


Na Biblioteca Municipal José Saramago, em Loures, na 6ª feira passada, dia 7. Com sala cheia, o livro No Limite da Dor como pretexto para mais uma conversa sobre a ditadura Salazarista/Caetanista e o seu aparelho repressivo, com uma das muitas vítimas directas, José Pedro Soares, a usar da palavra, e as vítimas indirectas Ana Aranha e o Marcelo Teixeira, das Edições Parsifal, além deste Vosso amigo. Não há muitas sessões deste tipo que se iniciem pouco depois das 21h00 e terminem perto da meia-noite – sem intervalo.

domingo, 9 de abril de 2017

Guterres designa Malala Yousafzai mensageira da Paz

Guterres designa Malala Yousafzai mensageira da Paz: O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, designou a Prémio Nobel da Paz Malala Yousafzai para Mensageira da Paz da ONU, a maior honra concedida por um líder da organização a um cidadão do mundo.

domingo, 2 de abril de 2017

25 de Abril - Roteiro da Revolução

É um dos mais recentes livros da Parsifal e para mim, é já o livro sobre Abril deste 2017. São depoimentos de variadíssimas pessoas que têm em comum (quase todas) o facto de terem protagonizado ou vivido, de forma mais ou menos intensa, o 25 de Abril.
Pelos seus aspectos particulares, valorizo mais os testemunhos dos civis do que os dos militares, ainda que o texto de Carlos Matos Gomes tenha a grande virtude de nos falar do 25 de Abril vivido na Guiné, não tão conhecido assim, e nos lembrar Carlos Fabião, mais do que um grande militar, um dos grandes homens daqueles tempos e que hoje está praticamente esquecido. 
Não se pode passar indiferente a testemunhos com os de Júlia Matos Silva, que sendo conhecedora do que se preparava naquela madrugada, ficou a aguardar ansiosamente as músicas que serviram de senhas - e a alegria chegou quando soaram. Depois foi calcorrear as ruas de Lisboa em busca das casas dos amigos a fim de lhes dar conta do que estava em marcha e porque não sabia o que lhe poderia suceder e tinha uma filha com 11 meses, o pedido aos pais: «cuidem bem dela».
Também o depoimento de Helena Pato é emocionante. Aborda as muitas horas que muitos entusiastas da liberdade passaram nas imediações da prisão de Caxias, aguardando, também com muita ansiedade, a libertação dos presos políticos. Reinava o pavor de que os pides ali de serviço se quisessem vingar e o fizessem nos homens e mulheres que ali estavam retidos e indefesos. E o pior surgiu quando na noite foi ouvido um tiro e depois um segundo. O horror. Felizmente não se confirmariam as piores suspeitas e a longa espera acabaria por ser compensada. Já se consumia a primeira hora do dia 27 quando as portas se abrirem. A alegria e a emoção transbordaram, tocando cada centímetro quadrado de pele, quando os presos começaram a sair.
Um livro a não perder para quem gosta deste tema. Ainda bem que há quem nos continue a surpreender e ainda bem que há quem vá teimando em divulgar a História através de livros como este.   

domingo, 19 de março de 2017

A Mulher Transparente em Alenquer

Foi ontem o dia da apresentação de A Mulher Transparente, de Ana Cristina Silva, que ocorreu na Biblioteca Municipal de Alenquer.

Fotos de Carlos Neves
Helena Assunção da BMA, a autora e este Vosso amigo



Ana Cristina Silva


Aqui deixo o texto que preparei sobre o livro:
A Mulher Transparente
Começo por fazer uma declaração de interesses: dentro daquele princípio de que o homem é ele e as suas circunstâncias, declaro que durante 18 anos trabalhei na 1ª secção da Directoria de Lisboa da Polícia Judiciária e destes, 13 anos tive a meu cargo centenas de processos, com origem em agressões conjugais. Dito isto, que acho importante, tudo o que possa dizer sobre a temática deste livro, não pode ser desligado dessa minha vivência profissional. E conto-vos isto para dizer desde já que não me foi fácil ler este livro.
Há várias razões para que um livro não seja fácil de ler. As mais comuns têm a ver com um, mais ou menos claro, desfasamento entre as características da obra e as valências ou apetências do leitor. Eu poria a questão mais nestes termos no que na falta de qualidade das obras, porque quando as carregamos com adjectivos, estamos simultaneamente a arrumá-las nas nossas prateleiras, que são apenas isso, as nossas prateleiras.
No meu caso, as dificuldades que senti perante A Mulher Transparente, tiveram a ver unicamente com o recuar no tempo e reviver muitas das experiências amargas que então vivi de forma intensa e quase diariamente. A trama é perfeitamente plausível e as personagens tão ricas, reais e vivas que dei por mim a pensar no trabalho de investigação a que a Ana Cristina Silva se deu para as conseguir construir. Nota-se nas pequenas coisas, que neste livro não faltam, porque emergem e entram no espírito do leitor através das palavras certas e, com maior subtileza ainda, através dos reflexos das vítimas perante determinadas situações. Está aqui tudo, porque tudo está em conformidade com aquilo que conheci e aprendi: o corpo marcado, mas principalmente a alma, cujas sequelas se estendem muito além dos factos e se reflectem nas lágrimas que vão caindo sem pedir licença; numa tristeza infinda surgem os dilemas, os precipícios, os muros intransponíveis, os caminhos sem saída.     
É claro que a violência doméstica tem muitas nuances, razões e protagonistas tipo, que o género romance dificilmente pode abarcar na totalidade. Em A Mulher Transparente, Ana Cristina Silva dá-nos conta de uma das situações mais comuns: um homem extremamente possessivo e uma mulher insegura, dada à descrença nas suas capacidades, manifestada em muitas tiradas como esta: «ainda me parecia inverosímil que o Meireles me amasse e quisesse casar comigo.» A autora desenhou muito bem estas personalidades, conferindo-lhe coerência ao longo do texto, justificando plenamente a sua forma de agir dentro dos respectivos padrões, ainda que fosse necessário recuar à infância e juventude de cada uma, chegando aos progenitores, pintando-os com as cores certas e necessárias para bem elucidar o leitor.
Mais uma vez e sempre, é o homem e as suas circunstâncias.
Sem querer entrar em pormenores para não estragar o prazer da leitura, direi que a obra está repleta de magníficos exemplos de quem são Meireles e Clara e de onde vieram. Em termos literários não faltam imagens que colocam o leitor no espírito das personagens e no contexto onde estão inseridas. A este nível, muito interessante é o episódio que nos dá conta da subida ao sótão da casa por parte de Clara, onde traça alguns paralelos entre o lixo de uma vida e as memórias mais íntimas que um espaço como aquele pode comportar, bem como os fantasmas que cada coisa daquelas pode arrastar – Não percam. Gostei francamente.
Ainda durante o noivado, andava o casal a escolher a decoração da casa, Clara experimentou pela primeira vez a violência da mão de Meireles. «Vamos esquecer tudo isto», disse-lhe ela quando ele, humildemente lhe pediu desculpa. Mas na verdade, e isto é importante, disse ela: «não exprimi a minha opinião sobre as toalhas à empregada que nos atendeu». Mais à frente do texto e face aquela relação marital: «dispus-me a estar errada e permanecer cada vez mais errada.» É o apagamento daquela personalidade, exigida pelo homem e aceite pela mulher.   
As faltas ao trabalho por vergonha sucederam-se: «conjuntivites que requerem o uso de óculos escuros (…) retocar várias vezes ao dia a maquilhagem para disfarçar as nódoas negras»; «esforcei-me por passar uma imagem de desastrada junto dos colegas (…) aliei-me assim ao meu marido na dissimulação (…) tomava precauções para não o denunciar (…). Na minha casa, cada peça de mobília conta uma história de feridas e destroços.» Ela procurava sempre desculpá-lo com a infância devido a uma educação muito rígida, cansaço pelo trabalho, «a minha incompetência», tudo servia a Clara para lhe ir perdoando.
As primeiras costelas partidas valeram à mulher muitas flores e renovados pedidos de desculpa. Ele comprava-lhe peças caras para a compensar e ter sempre na mão. Joias, malas, sapatos, chapéus, vestidos, quanto aos «acessórios», lenços e echarpes, necessários para encobrir as equimoses que teimavam em se mostrar, era ela que os comprava. «O meu marido era o mais atencioso dos carcereiros». «Meu deus, como ele me faz parecer inferior» até a culpa era dela quando ele não conseguia ter sexo por falta de excitação.
A esperança renascia sempre com um novo pedido de desculpas, «isto passa como uma qualquer doença.» Mais tarde, porém, deixaram de aparecer os pedidos de desculpa e chegaram as ameaças de morte, até ao filho, talvez como forma de compensar a ausência das desculpas e tudo se manter na mesma, ou seja, a vítima não chegar a pensar em mexer-se para alterar aquele status quo, já sem a esperança de que tudo passasse como uma doença, mas por medo.
A estratégia do homem de querer isolar a mulher fez-se sentir muito cedo. O possessivo marido quer afastar a mulher do mundo. Quer ter uma vítima só para ele. Qualquer chamada telefónica que ela recebesse era problemática, se fosse de homem então… Sair com a irmã para se sentarem a beber um café, poderia ser motivo para grandes problemas. Quando o fazia, Clara sentia que estava a prevaricar. Era a autocensura a dar sinais. Ele quis que ela deixasse o emprego. Mais tarde despediu a mulher-a-dias porque esta era uma intrusa naquele microcosmos que ele queria dominar por completo. Até o filho quando nasceu passou a ser uma preocupação para Meireles. Também «Daniel passou a ser uma ameaça para o seu domínio». Sem mulher-a-dias, Clara passou a ter a seu cargo a lida da casa e os desentendimentos e violência passaram a ter como justificação pequenos aspectos ligados a essas tarefas. Nunca faltaram motivos ao homem para demonstrar que a força troglodita era dominante.
A insegurança dela: «O medo que ele me deixasse». Ela não podia admitir que falhara no casamento; o fracasso da escolha do homem ou a incapacidade para manter a união. Crescera com a mãe a desconsiderá-la e a responsabilizá-la pelo que de mal ia surgindo em casa. O esforço de imaginação que a mulher necessitava para tentar compreender o que se passava. «O meu marido era apenas ciumento, mas amava-me, talvez de maneira excessiva». Porém, «não podes nunca enfurecê-lo», dizia para si. O medo como estratégia implementada pelo agressor e o reflexo na vítima: «O medo era a minha lente de aumentar sobre o mundo». Mais tarde e gradualmente deu-se o fechamento ao mundo, já não por imposição do agressor, mas por reacção natural da vítima à opressão e violência que sofria.
Chega a altura em que apenas sobra um caminho: a morte – a dele ou a dela. Mas pensar em fazer não é o mesmo que decidir fazer e ainda menos fazê-lo. O desespero atinge tal ponto que, quando ele lhe encostou uma faca ao pescoço, a reacção dela foi a seguinte: «Quase que o voltei a amar porque a lâmina fria oferecia-me um espaço de repouso.»
E quando as vítimas de violência doméstica pensam que podem enganar toda a gente… Há uma enfermeira que prestou a Clara os cuidados de que necessitou face a novas agressões do marido. Perante as desculpas da doente, disse-lhe a técnica: «Há instituições que a podem ajudar.» Mário é um arquitecto que Clara conheceu na Gulbenkian. Curiosa, mas perfeitamente realista e coerente, é a forma como ela abre o livro do sofrimento a esse estranho, livro que nem à sua irmã abrira. «Porque não o deixa? Porque não faz queixa à polícia?» Concluiria ela mais tarde: «Aquele homem espreitara para o fundo da minha vida, vira as feridas e os destroços.» Não é possível enganar toda a gente.
E quando se perpectivam soluções drásticas, as únicas capazes de resolver o assunto, surge um volte-face na história, que se revela muito interessante pelos papeis que as personagens principais passam a ter e a forma como o sofrimento e o ódio acumulados ao longo de anos se vão então manifestar. Tudo descrito com mestria e sem subterfúgios. Também esta parte do texto ajuda a perceber quanto o medo dominou a vida daquela mulher, levando este leitor a concluir que a partir de determinada altura ela só continuou a aceitar o sofrimento por medo e já não pelo que os outros poderiam pensar ou dizer. Chegara o tempo em que os outros já não pesavam na cabeça da vítima, porém, o medo pesa sempre. Nesta fase, devido ao tal volte-face, não havendo já razões para continuar a ter medo, Clara tomou uma decisão de enorme coragem, porque, aí sim, dadas as novas circunstâncias, teria a sua família e amigos, toda a sociedade contra ela, mas isso era mesmo o que menos lhe importava. Queria ainda tentar ser feliz, com todo o direito a sê-lo. Virada a página, quando tudo parecia pertencer ao passado, foi obrigada a concluir que afinal não era assim: «Tenho ainda muitos pesadelos. Durmo mal e reduzo os meus contactos sociais ao mínimo, como se tivesse medo das pessoas.»
O livro termina com uma outra sequência de acontecimentos, mas sobre eles, quero apenas dar conta das sequelas, dos traumas que aquele longo pesadelo causara e que afinal continuava a causar. Mas era preciso insistir e continuar a viver, ainda assim: «… A corrente do amor deixara há muito de percorrer as minhas veias e o meu corpo não era receptivo ao toque (…). O pânico de voltar a ter um relacionamento igual ao do meu casamento contaminava todos os meus pensamentos.» Sequelas penosas e prolongadas.
Não posso terminar sem deixar uma palavra para os filhos, que a quase tudo assistem ou pressentem e por isso também são vítimas. Ana Cristina Silva não minimizou esta importante questão, ao introduzir na trama o filho do casal, de que já atrás falei, que como qualquer filho nestas circunstâncias, vive os dramas quase sempre em silêncio. Restam as reacções que o corpo e o espírito não sabem ocultar, de que não faltam exemplos no livro. Interessantíssima é a descrição da gradual evolução das manifestações da criança ao longo de todo o período, manifestações que perduram após terminar o ciclo de violência e que depois – também em função da idade destas vítimas, digo eu – o aparente apaziguar, o regresso paulatino à paz interior e ao crescimento saudável, como se tudo o que ficou para trás não tivesse passado de um sonho mau. Aparente porque o futuro está sempre ao virar da próxima esquina e nunca se sabe o que nos espera.   
Para concluir, direi que A Mulher Transparente é um livro de uma enorme seriedade a todos os níveis: literário e na abordagem à temática da violência doméstica. Está muito bem escrito, sem surpresa, diga-se. Como leitor gosto de ser colocado nos ambientes e nas personagens. Esta é a magia da literatura e neste livro ela não falta. Em termos de estrutura, apreciei o método da autora recusar seguir a cronologia de forma certinha. Por vezes a trama dá dois passos à frente, para recuar um e logo a seguir se adiantar mais três, e assim avança a história de forma agradável e aliciante. Ana Cristina Silva fez isto muito bem, correndo os riscos inerentes, mas de que se saiu magnificamente, conseguindo manter este leitor sempre à coca e interessado em continuar em busca do desenrolar do mistério que a próxima página guarda.  
CA


sábado, 11 de março de 2017

350 filmes para ver

Da página do Facebook de Lauro António, aqui vos deixo o link para 350 filmes. Há de tudo e como  escreveu LA, há o bom, o mau e o vilão. Divirtam-se.

É clicar
http://www.dailymotion.com/Alice-Bauer

10 filmes do neorealismo italiano

Da página do Facebook de Lauro António, aqui vos deixo o link para um artigo sobre os mais célebres filmes do neorealismo italiano.

É clicar
http://cineplot.com.br/index.php/2016/05/09/10-filmes-do-neorrealismo-italiano-que/

A Mulher Transparente em Alenquer


A convite da autora, Ana Cristina Silva, farei a apresentação do livro A Mulher Transparente, cujos direitos da 2ª edição, saída recentemente, revertem a favor da APAV. Trata-se de uma ficção que aborda de forma muito real, as envolvências de um clima extremo de violência doméstica. 

quarta-feira, 8 de março de 2017

O Bairro em Novos Livros

O Bairro é seguramente o meu livro mais injustiçado. O grupo Leya estava em arrumação, deu-se a mudança de editores a meio do processo e um outro autor «mais vendável» ia publicar um livro no mesmo grupo com o mesmo título. Chegaram a propor-me trocar de título, imaginem, com o livro já nas livrarias. Recusei, claro. Tudo somado fez com que da edição de 3000 exemplares tivessem colocado no mercado pouco mais de 1000, que se venderam em grande parte, e nunca mais voltou a haver recolocação, ficando os restantes em armazém. Uns meses depois sairia então o tal livro e só então percebi a marosca. Não voltei a publicar na Oficina do Livro. Lamento a gestão de todo o processo à volta deste livro, até porque, modéstia à parte, é um bom romance, muito genuíno, muito sentido, porque muito próximo da realidade que retrata, a Cova da Moura e que bem conhecia na altura. Se o encontrarem, o que duvido, leiam, acho que vale bem a pena. Aqui deixo uma pequena entrevista que concedi a uma revista da especialidade aquando do lançamento, em 2012, que serve como aperitivo.    

Novos Livros - Revista de Leitores para Leitores: Carlos Ademar | O Bairro: 1- O que representa, no contexto da sua obra, o livro «O Bairro»? R- «O Bairro» é, de todos os meus livros, o que mais se aproxima do conce...

25º Curso de Escrita Criatriva do El Corte Inglés

José Couto Nogueira, o grande dinamizador do Curso, e Susana Santos, a grande dinamizadora das actividades culturais, e são muitas, que decorrem no El Corte Inglés.
Fica o calendário dos escritores convidados:
Terça-feira, dia 14 de Fevereiro, começa o XXV Curso de Escrita Criativa. Como é tradicional, os antigos alunos podem assistir às apresentações dos autores convidados. Neste momento ainda não tenho a lista completa, mas já posso confirmar os seguintes: 
23 de Fevereiro - Miguel Real, o romancista histórico que já nos agraciou com outras presenças no curso;
2 de Março - Afonso Cruz, cujo último romance, "Nem todas as baleias voam", considero extraordinário;


7 de Março - Carlos Ademar, cujos romances têm sempre uma pesquisa histórica muito cuidada e que recentemente publicou dois livros não ficcionais: a biografia de Vítor Alves e "Nos limites da dor", sobre as torturas nas prisões da PIDE;
9 de Março - Dulce Garcia, jornalista, que lança na quarta-feira o seu primeiro romance, "Quando perdes tudo não tens pressa de ir a lado nenhum";

E lá começou o curso deste ano! 
Possidónio Cachapa será o autor convidado dia 14 de Março. O último livro dele chama-se "Eu sou a árvore"
16 de Março - Ana Cristina Silva, autora de vários romances, sendo o último "A noite não é eterna"


Fonte: José Couto Nogueira no Facebook de Escritores Criativos do Futuro.

A minha presença foi ontem e correu muito bem, sala cheia de gente interessada, como é hábito, em ambiente muito bem disposto como convém, e lá abordei as minhas experiências com as letras e com os livros. 

domingo, 5 de março de 2017

Contra todas as formas de discriminação - Villa Lobos - Bachianas Brasileiras 5 - Aria


O título diz tudo e vem a propósito das declarações muito infelizes do presidente do Sporting (o meu clube) no discurso de vitória nas eleições de ontem, que vêm, de resto e infelizmente, ao encontro do espírito de discriminação e de confrontação em que o mundo vive. Mas quero dizer mais uma coisa. Este video é dedicado a todos os brasileiros, que estão a passar uma fase de grande instabilidade, havendo até quem tema uma réplica do golpe militar de 1964. Os mais antigos dizem-me que as condições com que hoje se deparam não não assim tão diferentes. Tudo de bom, e fiquem com a grande música do grande Vila-Lobos.


terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Promoção turistica para inglês ver - anos 50

Um video de promoção turistica de Portugal, produzido nos anos cinquenta do século XX. Interessante (sacado no Facebook de Filipe do Paulo).

é clicar
https://www.facebook.com/filipe.dopaulo?fref=ts

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

TIMOR - TROVANTE



Eu estive lá. Foi em 1999, no Pavilhão Atlântico, que já se chamou Utopia e agora se chama outra coisa qualquer. Mas isso não interessa nada. Interessa, mas pouco, que eu acompanhei com muito interesse toda a carreira dos Trovante e este foi o primeiro espectáculo que deram após o fim oficial do grupo, no final dos anos 80. Foi um concerto que aconteceu muito por vontade do então presidente da República, Dr. Jorge Sampaio. Interessa também que o pavilhão estava cheio como eu nunca o vi, e estive lá muitas vezes. Interessa que nesse ano de 1999, Timor estava na corda bamba, com o referendo sobre a independência marcado, e a ferro e fogo por acção dos grupos pró Indonésia, que tudo faziam para que a antiga província portuguesa continuasse a ser parte integrante daquele imenso país, então dirigido por uma feroz ditadura. Interessa que comecei ontem a dar formação a um novo curso de jovens timorenses, na faixa etária dos 25 aos 35 anos. Para terminar, interessa também que no fim da aula de hoje, antes de sairmos, procurei este vídeo e depois de uma breve introdução à forma como os portugueses viveram o drama do povo timorense, passei-o. Foi bonito vê-los a cantar ou trautear uma canção que muitos conheciam, ainda que desconhecessem a solidariedade de então dos portugueses e ficaram felizes por saberem que existiu. Agradeceram o momento e comoveram-se até às lágrimas. Eu, depois de tanta emoção à volta desta canção durante tanto tempo, não sabia que passados todos estes anos, ainda me poderia emocionar ao ver a forma como foi entoada naquela noite pelos cerca de 20 mil portugueses, que eram uma boa representação dos sentimentos de solidariedade dos 10 milhões de portugueses. Eu estava lá. Estes 5 minutos foram mágicos. 

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Salvador Sobral - Amar Pelos Dois - Esqueçam lá o estigma do Festival da Canção



Esqueçam lá o estigma do Festival da Canção. Não sei quem é o autor ou compositor, não conheço o cantor, mas sem preconceitos, aqui está uma magnífica canção, magnificamente interpretada. Tenho muito orgulho em que haja gente a fazer música e a cantar assim no meu país, e por isso partilho com muito, muito gosto, com votos de muitas felicidades aos responsáveis por estes belos três minutos, e que não cedam, nunca. Continuem assim, porque assim fazem a diferença pela positiva. Serão sempre pobres... deixem, que lixe, mas têm este meu post, a minha admiração e a de muitos toscos como eu, como nós. Um grande bem-haja. 

sábado, 18 de fevereiro de 2017

Ainda os SMS`s de Centeno

Soube agora, o António Domingues está disponível para apresentar os SMS`s à nova comissão parlamentar, se esta lhos exigir. Que giros são estes gajos. Todos ficamos a saber agora porque nasceu esta nova comissão parlamentar (ainda a 1ª não está encerrada - nunca visto). O Domingues falou com o seu amigo Lobo Xavier que, mais uma vez, soprou aos seus amigos esta magnífica manifestação de vontade. Já agora, que a maioria de esquerda se continue a fazer sentir e mande estes meninos às ortigas. Aprendam a respeitar os reais interesses do país, esquecendo-se dos seus e dos seus apaniguados. Todo este processo, que envolve a CGD, é uma VERGONHA para todos nós e devia envergonhar também toda a classe política, levando-a a reflectir nas razões que têm levado a que os fascismos estejam a florescer.