quarta-feira, 24 de abril de 2013

A Marta e o 25 de Abril


A propósito do dia de hoje e da madrugada que aí vem, fiquem com um excerto de um capítulo da minha Primavera Adiada.


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Enquanto seguiam no Dyane até à Rua da Rosa, com Marta ao volante, António ligou o rádio e perguntou se o podia sintonizar na Rádio Renascença, no que foi consentido, sem, contudo, se livrar de um comentário demonstrativo da estranheza pela opção:
- Claro! Mas… Renascença...?
Ele sorriu pelo reparo, que tinha subjacente as ligações católicas da emissora, mas teceu rasgados elogios ao programa Limite, que ouvia sempre que podia. Ela não estava a par, mas lembrou-se e achou curiosa a referência que lera num dos intervalos das aulas no República daquele dia, jornal que um seu colega comprava religiosamente e que deixava sempre na sala dos professores. O artigo fazia rasgados elogios a esse mesmo programa e, por ter achado interessante a coincidência, comentou-o com António.
- Isso é muito estranho... – respondeu ele com cara de caso, ficando em aparente congeminação.
Quando subiam em direcção ao Príncipe Real, ouviram a voz grave do apresentador a declamar os versos da canção Grândola Vila Morena, a que se seguiu a passagem do tema musical, que foi ouvido em silêncio.
- É hoje, tem de ser hoje – disse António enquanto soavam os últimos acordes. Um certo brilho nos olhos denunciava alguma emoção.
Ela quis saber o quê e ele esclareceu-a relativamente às suas conclusões. As conversas que vinha a ouvir junto dos seus camaradas, sobre o que se estava a preparar, conjugado com o artigo do oposicionista República a que Marta aludira, empurrando os leitores para a audição do Limite nessa noite e ainda, a passagem daquela canção nesse mesmo programa àquela hora, na sua concepção das coisas e após tudo pesado, só poderia ter um significado:
- Os militares vão para a rua – disse extasiado.
- Os militares vão para a rua?... Ok… mas nós vamos para casa, certo? – respondeu a mulher, com a placidez da verdadeira autoridade.
Entusiasmado, beijou-a nos lábios, obrigando-a a desviar a cabeça para não perder o contacto visual com a estrada. A reacção masculina fora motivada não só pela declaração que acabara de ouvir à condutora, mas também por tudo quanto se passara ao longo da noite, e principalmente, pelo que adivinhava que iria acontecer nas próximas horas, não só em sua casa, mas também no País. Estava eufórico.
No País, é sabido, aconteceu algo. As Forças Armadas destituíram o poder instalado, derrubando o regime de quase cinquenta anos e prometeram restabelecer a democracia, legalizar os partidos, libertar os presos políticos, pôr a Nação nos eixos do desenvolvimento e descolonizar as Províncias Ultramarinas, pondo fim à tão odiada guerra em África. Em casa de António, um modesto, mas acolhedor apartamento que ele ocupara após a separação, segundo Marta, foi bom mas curto. Depois de António lhe mostrar o seu escritório, onde devorava livros horas a fio, tentando descobrir factos e personagens que ficaram perdidos no tempo, sentaram-se no sofá da sala a beber café e Macieira, enquanto iam trocando carícias verbais e gestuais.
Quando tomavam balanço para entrar em patamares mais altos da afectividade e os corpos já se uniam, as mãos pesquisavam e as bocas se tocavam, suou o inoportuno terrrim-terrrim do telefone. Era o chefe do dono da casa a pedir-lhe que se apresentasse de imediato na redacção. Estavam na fase inicial da preparação de uma edição especial do jornal, porque, dizia, «As horas que se aproximam também serão especiais.» Já empolgado, o jornalista quis conhecer as razões, e elas chegaram, confirmando as suas mais animadas suspeitas. Desligou e quando o fez todo o seu corpo estava efervescente. Porém, mal viu Marta sentada no sofá expectante, o sorriso exterior, mas também um pouco o interior, esmoreceu. A excitação em que o telefonema o deixara pareceu adormecer um pouco.
Encarou a rapariga como quem tinha uma declaração horrível para lhe fazer que de si para si lhe soou a: «Adoraria ficar, mas, entretanto apareceu outra ainda mais deslumbrante do que tu, a quem há muito desejo. Logo, tu sais de cena. Adeus.» Desfez-se em mil desculpas, responsabilizou o diabo do chefe, o maldito trabalho, mas a verdade é que os militares estavam na rua. Estalara a tão sonhada revolução e ele, nem por Marta a queria perder. E ela nunca lhe perdoou.