quarta-feira, 6 de abril de 2016

Os “Papéis do Panamá” e os heróis do nosso tempo

Os “Papéis do Panamá” e os heróis do nosso tempo

O actual Governo só deixará marca na história recente deste país se conseguir, não sendo fácil é-lhe exigível, que sem desequilibrar as contas do Estado, redistribuir a riqueza por forma a reduzir o fosso que separa os ricos dos pobres

Se o conseguir terá certamente o apoio da maioria do povo português e bem, porque ganhou a aposta certa que fez. E isto, não apenas pelas situações gritantes de desigualdade existentes, mas também pela expectativa que conseguiu criar numa vasta maioria dos eleitores portugueses, que rejubilaram quando se aperceberam que não haviam sido condenados a viver mais quatro anos sob o jugo de uma ditadura demo-ultra-liberal.

Foi gritante a arrogância do quero, posso e mando, que parece ter-se erguido das catacumbas da história para imperialmente se impor nos nossos dias, com as consequências de todos conhecidas. Foi flagrante a forma desigual como os portugueses foram tratados, parece que em jeito de vingança pelo PREC, como alguém lhe chamou, pois grande parte das conquistas nesse período conseguidas, foram gradual, mas grandemente postas em causa nestes últimos quatro anos.
Para atestar as consequências da política que fomentou as desigualdades de oportunidades, servimo-nos de alguns exemplos que embora corriqueiros, consideramos essencial mantê-los à tona do pensamento. Num contexto de política de redução do consumo interno, os cortes nos salários e pensões e o medo incutido, gerou um abalo tremendo, ameaçando a falência do principal tronco da estrutura económica do país, a classe média – foi isto que sucedeu. Milhares de empresas encerraram, chegando Portugal a um número impensável de desempregados, número que apesar de estar em queda, esta é de tal forma lenta e hesitante que não se pode considerar consolidada.
Paradoxalmente, nunca as casas e os automóveis de luxo tiveram quebras nas vendas ao longo dos últimos anos, bem pelo contrário, registaram-se até assinaláveis subidas, algumas escandalosas, como foi o caso dos carros de luxo em 2013, cujas vendas cresceram cerca de 23%, enquanto o país quase morria asfixiado – uma vergonha para qualquer país democrático. Apesar de os grandes grupos económicos portugueses líderes da distribuição, alegando dificuldades provocadas pela crise, pagarem salários baixíssimos e aplicarem regras laborais altamente lesivas para os trabalhadores, para o seu bem-estar pessoal e familiar, os resultados anuais apontam exactamente o contrário do que é afirmado pelos altos quadros desses grupos nas notícias a que vamos tendo acesso. Os lucros sobem todos os anos e não se vêem significativas diferenças entre anos de crise e anos em que ela não é anunciada. Quando há menos poder de compra, cortam nos salários e fazem uma exploração intensiva da mão-de-obra disponível – imoral, no mínimo.
Soubemos agora, a propósito das revelações vindas a lume pelos chamados «Papéis do Panamá», que se calcula em dois milhões e oitocentos mil euros que fogem do país todos os dias para os muitos offshores que florescem por esse mundo. Tudo somado falamos de 840 milhões de euros por ano que não pagam imposto em Portugal; e quanto deste dinheiro não terá sido surripiado aos cofres do Estado pelas artes mágicas da corrupção? Como contraste, triste contraste, soubemos também recentemente que o salário médio em Portugal, um dos mais baixos da EU, num período de quatro anos, de 2012 até final de 2015, subiu uns míseros cinquenta cêntimos – são números e contrastes que deviam envergonhar as elites deste país, as tais do «aguenta, aguenta!» ou as que defendem uma economia com base em salários baixos, ou ainda as que legislaram em favor das pensões vitalícias para os políticos. Não se me oferece outra palavra: vergonha.
Não é naturalmente a lei que está em causa, acredito que a apliquem, é antes a relação entre funcionário e entidade empregadora que verdadeiramente deve contar, no caso das empresas portuguesas. Ninguém duvidará que quanto mais saudável esta for, mais alto será o estimulo, a entrega e assim a produtividade. No que depende do trabalhador, penso que esta conclusão não oferecerá grandes dúvidas. Do lado da entidade patronal, não é preciso descobrir nada de novo, basta que dê atenção ao que se passa nas empresas de maior rentabilidade e analisem a grelha salarial e as condições que oferecem aos seus trabalhadores. E não faltam felizmente exemplos em Portugal, pena é que nos chegam apenas de empresas estrangeiras, do que conheço.
Se a lei está a ser cumprida e os resultados são tão negativos, será então caso para a rever, porque certamente é esta que não está ajustada. Os políticos foram longe de mais na cedência aos patrões – o PREC, mas ao contrário. É disto que falamos quando falamos das expectativas no actual Governo que actue no sentido de corrigir as anomalias que têm de chocar qualquer democrata. Em situações de crise só os trabalhadores a sentem verdadeiramente no corpo, na conta bancária e assim, no frigorífico. Governantes deste país, não esperem que os pobres tenham que comer os ricos por falta de opção. Que mundo é este? Que Estado é este? Que democracia é esta? Não é certamente o que quer a maioria do povo português que apoia o actual Governo.
Vem isto tudo a propósito de uma mensagem electrónica que recebi. Hesitei bastante, mas acabei por me decidir dá-la a conhecer, naturalmente eliminando os elementos identificativos do autor. Hesitei porque, desde logo, se trata de uma mensagem pessoal. Depois, porque o facto de a publicar pode ser confundido com algum gesto narcísico. No entanto, apesar dos riscos, entendi que as vantagens para o conhecimento do fenómeno são tais que reduzem os riscos à insignificância. São essencialmente três as razões que me instigaram à publicação: a primeira prende-se com a carga de humanidade que a mensagem carrega, a ligação terna, comovente até, entre mãe e filho; também porque as palavras que vão ler nos dão conta da vida real, da dureza do quotidiano dos mais desfavorecidos desta sociedade; por último, a resiliência que aqui está bem patente, ao não desistirem ou cingirem-se a lamentar a sua sorte, mas pelo contrário, procuram alternativas no prazer que a cultura pode proporcionar e estão na luta. Significativo por si só.
Esperamos melhorias, exigimos melhorias, grandes, mas sustentáveis. Deixo-vos pois, com as palavras de um jovem português, um dos heróis deste tempo que queremos renovado, sem subterfúgios nem truques, nada na manga, mas com soluções concretas e objectivas, que devem ser publicitadas e explicadas.

Caro Carlos Ademar,
(…) Sempre passei por bastantes dificuldades, e a minha mãe sempre me educou a lutar por tudo aquilo que quero, e foi então que decidi enviar-lhe este e-mail.
Eu tenho 20 anos, e entrei na faculdade este ano. Desde a minha entrada na faculdade, que tenho passado por grandes dificuldades a nível financeiro. A minha mãe trabalha como empregada doméstica, embora seja bastante doente do coração e se sinta cansada com muito pouco. Eu procuro trabalho constantemente, mas parece que cada vez é mais difícil consegui-lo. Apesar disso, a minha mãe é uma lutadora. Nunca me deixa desistir de nada, e faz tudo para que me sinta bem. Às vezes nem sei como a compensar daquilo que ela me faz, e no que depender de mim irei cumprir todos os seus sonhos.
É por isto que lhe envio o e-mail. No outro dia, fomos passear os dois a um centro comercial, e quando estávamos na Bertrand, ela pegou no seu livro O Chalet das Cotovias, e comentou comigo que a patroa tinha aquele livro, e que por vezes ela ia lendo algumas passagens, e que o livro era muito bom. Quando a questionei porque não o comprava, a resposta foi simples, direta, e que me custou bastante ouvir “ Porque tu tens que comprar livros para a faculdade ”. Custou-me porque sei que ela o faz para o meu bem, e por vezes deixa de pensar nela. Eu não tenho dinheiro para lhe comprar o livro, todo o dinheiro que tenho, é-me dado por ela, e é sempre para comprar algo que é necessário, como tal, gostaria de saber se me pode ajudar, e oferecer um exemplar à minha mãe. Pode ser um que não tenha sido posto à venda, ou que esteja danificado. Tenho a certeza que ela ia adorar, e irá perceber que também eu farei tudo o que estiver ao meu alcance para a ajudar.
Se me poder ajudar, poderá enviar pelo correio (Rua…) ou poderei eu levantá-lo no sítio que lhe for mais conveniente. Gostava imenso que me ajudasse! Mesmo que não possa, quero que saiba que continuará com dois grandes fãs e seguidores do seu trabalho. Desejo-lhe o melhor possível, e deixo-lhe os meus sinceros cumprimentos.
(Assina)
Um herói do nosso tempo – digo eu.