CRÍTICA

“Nem traidor, nem herói” [No limite da dor]


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No limite da dor. Texto: a partir do livro No limite da dor, de Ana Aranha e Carlos Ademar. Encenação: Júlio César Ramirez. Interpretação: Ana Ademar, António Revez. Cenografia: Júlio César Ramirez. Figurinos, grafismo e fotografia: Ana Rodrigues. Banda sonora: João Nunes, com a participação Fernando Pardal. Desenho de luz e Sonoplastia: Ivan Castro. Operação de luz e som: Ivan Castro. Construção de cenário: Ivan Castro e Ana Rodrigues. Produção executiva: Rafael Costa.
Teatro Pax Julia – Sala Estúdio, Beja, 2 de Março de 2016
3ª edição do FITA – Festival Internacional de Teatro do Alentejo
Em 2016, o FITA arranca em nome próprio. É com uma produção das Lendias d’Encantar, a estrutura que produz o festival, que se inicia esta iniciativa que traz, difunde e celebra o teatro no Alentejo. Apresentado agora numa nova versão, No limite da dor foi criado em 2014 e estreado em Maio do mesmo ano no Cine Granadeiro, em Grândola.
O espectáculo é concebido a partir do livro homónimo da autoria de Ana Aranha e Carlos Ademar que é o resultado de um programa de rádio da Antena 1 de entrevistas a presos políticos torturados pela PIDE (Polícia Internacional de Defesa do Estado) durante o Estado Novo.
Mantendo o carácter de uma entrevista, onde o discurso das personagens surge como resposta a perguntas ausentes, o texto resulta da selecção e adaptação de quatro testemunhos: o de Georgina, uma estudante de 20 anos, detida e mantida em isolamento ilegalmente; Luís Moita, associado aos católicos progressistas e colaborador do BAC (Boletim Anti-Colonial), e Conceição e Domingos, casal militante do Partido Comunista Português que vivia na clandestinidade. Construído em torno das noções de tortura, dor, violência, medo, resistência, culpa, humilhação e dignidade, este espectáculo coloca perante o observador uma exposição testemunhal muito delicada, mas imprescindível a uma leitura da história recente do povo português.
O encenador cubano Júlio César Ramirez, convidado para dirigir o espectáculo, acentua o carácter coloquial da entrevista, colocando o foco no valor testemunhal destas personagens reais, cujo discurso–depoimento é feito em simbólica interlocução com o público, colocando-o no lugar do entrevistador e incluindo-o nesta conversa sobre a sua memória colectiva. A presença de recorrentes interjeições ao longo do texto favorece esta estratégia de interacção directa com o público e corrobora o ambiente íntimo e confessional em que escutamos estes presos políticos, que resistem incondicionalmente aos seus carrascos (o casal), ou acabam por ceder aos violentos interrogatórios na António Maria Cardoso (os restantes).
Pondo em evidência o debate lançado na constante sobreposição entre público e privado, entre intimidade e testemunho histórico, entre história pessoal e história nacional e, finalmente, entre memória individual e memória colectiva, o espectáculo leva-nos a reflectir sobre convicção, ideal e família em diálogo com estas dicotomias aparentes que são, muitas vezes, apenas ilusórias distinções.
O trabalho cenográfico associa-se à nudez, rudeza e solidão associadas à clausura. No pequeno palco da sala-estúdio do Pax Julia, vemos apenas duas grades, colocadas em extremidades opostas (esquerda baixa e direita alta), 3 cadeiras, ora colocadas dentro das “celas” ora à boca de cena, e ainda pequenas anotações simbólicas, como a presença de um espelho onde tanto os intérpretes como os espectadores se reflectem, ou a candeia pousada numa mesa alta ao centro, qual réstia de luz num palco predominantemente escurecido. Igualmente, a iluminação do espectáculo serve-se da expressividade da relação entre luz e sombra para acentuar o semblante de reclusão e debilidade das personagens, projectando as grades nas suas faces.
Ao serviço da unidade e da boa articulação dos testemunhos, encontramos neste trabalho uma demarcada estrutura interna e simetria formal que se faz sentir tanto na distribuição das personagens (dois actores, uma actriz e um actor, ambos representando duas personagens, duas mulheres e dois homens), como na organização dos testemunhos, que partem de dois depoimentos individuais (Georgina e Luís Moita) para a fusão de dois depoimentos numa espécie de testemunho colectivo que é o do casal. Esta ordenação cria um movimento de contínua abertura e sublinha a intenção de passar do individual para o colectivo, da experiência do indivíduo para a experiência da comunidade, o que facilita a inclusão emocional do espectador contemporâneo.
O tom naturalista com que se desenha o trabalho de actor serve o registo confessional da partilha destas memórias complexas e a linguagem quotidiana do próprio texto, que é interpretado com grande qualidade pelos actores que conseguem criar com segurança e eficácia os dois testemunhos diferentes a que dão voz.
O elogio da resistência anti-fascista, manifesto também na presença de várias canções de intervenção, como a Ronda do Soldadinho de José Mário Branco que Ana Ademar entoa no início do espectáculo, ou o Hino de Caxias que é cantado por ambos, não corresponde à condenação dos delatores que são retratados com a generosidade que merecem, mas sim à tentativa de honrar o combate ao aparelho repressivo do Estado.
Sendo um espectáculo curto, com cerca de 60 minutos, é extraordinariamente denso e concretiza o seu objectivo: lançar a discussão sobre vítimas e carrascos no Portugal contemporâneo e procurar compreender que papel desempenham antes e depois da revolução e como é que a sociedade se posiciona em relação a eles. Convocando a memória da nossa história recente através da descrição da violência sofrida por cerca dos 30 mil presos políticos, por vezes tão jovens como Georgina, às mãos dos seus compatriotas agentes da polícia política, esta obra põe em evidência a ausência de julgamento e o silêncio com que se trataram os torturadores da nossa ditadura e as sequelas possivelmente incuráveis dos que viveram e vivem com os traumas resultantes dos interrogatórios de que foram vítimas. Aos que não falaram o nosso respeito, solidariedade e admiração: abraços! Aos que falaram, o nosso respeito, solidariedade e admiração também. Nem traidores, nem heróis, mas com certeza, sobreviventes.