A Mulher Transparente em Alenquer
Foi ontem o dia da apresentação de A Mulher Transparente, de Ana Cristina Silva, que ocorreu na Biblioteca Municipal de Alenquer.
Fotos de Carlos Neves

Fotos de Carlos Neves
Helena Assunção da BMA, a autora e este Vosso amigo

Ana Cristina Silva
Aqui deixo o texto que preparei sobre o livro:
A
Mulher Transparente
Começo por fazer uma declaração de
interesses: dentro daquele princípio de que o homem é ele e as suas
circunstâncias, declaro que durante 18 anos trabalhei na 1ª secção da Directoria
de Lisboa da Polícia Judiciária e destes, 13 anos tive a meu cargo centenas de
processos, com origem em agressões conjugais. Dito isto, que acho importante,
tudo o que possa dizer sobre a temática deste livro, não pode ser desligado
dessa minha vivência profissional. E conto-vos isto para dizer desde já que não
me foi fácil ler este livro.
Há várias razões para que um livro não
seja fácil de ler. As mais comuns têm a ver com um, mais ou menos claro, desfasamento
entre as características da obra e as valências ou apetências do leitor. Eu
poria a questão mais nestes termos no que na falta de qualidade das obras,
porque quando as carregamos com adjectivos, estamos simultaneamente a
arrumá-las nas nossas prateleiras, que são apenas isso, as nossas prateleiras.
No meu caso, as dificuldades que senti perante
A Mulher Transparente, tiveram a ver unicamente
com o recuar no tempo e reviver muitas das experiências amargas que então vivi de
forma intensa e quase diariamente. A trama é perfeitamente plausível e as
personagens tão ricas, reais e vivas que dei por mim a pensar no trabalho de investigação
a que a Ana Cristina Silva se deu para as conseguir construir. Nota-se nas
pequenas coisas, que neste livro não faltam, porque emergem e entram no espírito
do leitor através das palavras certas e, com maior subtileza ainda, através dos
reflexos das vítimas perante determinadas situações. Está aqui tudo, porque tudo
está em conformidade com aquilo que conheci e aprendi: o corpo marcado, mas principalmente
a alma, cujas sequelas se estendem muito além dos factos e se reflectem nas
lágrimas que vão caindo sem pedir licença; numa tristeza infinda surgem os
dilemas, os precipícios, os muros intransponíveis, os caminhos sem saída.
É claro que a violência doméstica tem
muitas nuances, razões e
protagonistas tipo, que o género romance dificilmente pode abarcar na
totalidade. Em A Mulher Transparente,
Ana Cristina Silva dá-nos conta de uma das situações mais comuns: um homem
extremamente possessivo e uma mulher insegura, dada à descrença nas suas
capacidades, manifestada em muitas tiradas como esta: «ainda me parecia
inverosímil que o Meireles me amasse e quisesse casar comigo.» A autora desenhou
muito bem estas personalidades, conferindo-lhe coerência ao longo do texto, justificando
plenamente a sua forma de agir dentro dos respectivos padrões, ainda que fosse
necessário recuar à infância e juventude de cada uma, chegando aos progenitores,
pintando-os com as cores certas e necessárias para bem elucidar o leitor.
Mais uma vez e sempre, é o homem e as
suas circunstâncias.
Sem querer entrar em pormenores para não
estragar o prazer da leitura, direi que a obra está repleta de magníficos
exemplos de quem são Meireles e Clara e de onde vieram. Em termos literários
não faltam imagens que colocam o leitor no espírito das personagens e no
contexto onde estão inseridas. A este nível, muito interessante é o episódio
que nos dá conta da subida ao sótão da casa por parte de Clara, onde traça
alguns paralelos entre o lixo de uma vida e as memórias mais íntimas que um
espaço como aquele pode comportar, bem como os fantasmas que cada coisa
daquelas pode arrastar – Não percam. Gostei francamente.
Ainda durante o noivado, andava o casal
a escolher a decoração da casa, Clara experimentou pela primeira vez a violência
da mão de Meireles. «Vamos esquecer tudo isto», disse-lhe ela quando ele,
humildemente lhe pediu desculpa. Mas na verdade, e isto é importante, disse ela:
«não exprimi a minha opinião sobre as toalhas à empregada que nos atendeu». Mais
à frente do texto e face aquela relação marital: «dispus-me a estar errada e
permanecer cada vez mais errada.» É o apagamento daquela personalidade, exigida
pelo homem e aceite pela mulher.
As faltas ao trabalho por vergonha
sucederam-se: «conjuntivites que requerem o uso de óculos escuros (…) retocar
várias vezes ao dia a maquilhagem para disfarçar as nódoas negras»; «esforcei-me
por passar uma imagem de desastrada junto dos colegas (…) aliei-me assim ao meu
marido na dissimulação (…) tomava precauções para não o denunciar (…). Na minha
casa, cada peça de mobília conta uma história de feridas e destroços.» Ela procurava
sempre desculpá-lo com a infância devido a uma educação muito rígida, cansaço
pelo trabalho, «a minha incompetência», tudo servia a Clara para lhe ir perdoando.
As primeiras costelas partidas valeram à
mulher muitas flores e renovados pedidos de desculpa. Ele comprava-lhe peças
caras para a compensar e ter sempre na mão. Joias, malas, sapatos, chapéus,
vestidos, quanto aos «acessórios», lenços e echarpes, necessários para encobrir
as equimoses que teimavam em se mostrar, era ela que os comprava. «O meu marido
era o mais atencioso dos carcereiros». «Meu deus, como ele me faz parecer
inferior» até a culpa era dela quando ele não conseguia ter sexo por falta de
excitação.
A esperança renascia sempre com um novo
pedido de desculpas, «isto passa como uma qualquer doença.» Mais tarde, porém,
deixaram de aparecer os pedidos de desculpa e chegaram as ameaças de morte, até
ao filho, talvez como forma de compensar a ausência das desculpas e tudo se
manter na mesma, ou seja, a vítima não chegar a pensar em mexer-se para alterar
aquele status quo, já sem a esperança
de que tudo passasse como uma doença, mas por medo.
A estratégia do homem de querer isolar a
mulher fez-se sentir muito cedo. O possessivo marido quer afastar a mulher do
mundo. Quer ter uma vítima só para ele. Qualquer chamada telefónica que ela
recebesse era problemática, se fosse de homem então… Sair com a irmã para se
sentarem a beber um café, poderia ser motivo para grandes problemas. Quando o
fazia, Clara sentia que estava a prevaricar. Era a autocensura a dar sinais. Ele
quis que ela deixasse o emprego. Mais tarde despediu a mulher-a-dias porque esta
era uma intrusa naquele microcosmos que ele queria dominar por completo. Até o
filho quando nasceu passou a ser uma preocupação para Meireles. Também «Daniel
passou a ser uma ameaça para o seu domínio». Sem mulher-a-dias, Clara passou a
ter a seu cargo a lida da casa e os desentendimentos e violência passaram a ter
como justificação pequenos aspectos ligados a essas tarefas. Nunca faltaram
motivos ao homem para demonstrar que a força troglodita era dominante.
A insegurança dela: «O medo que ele me
deixasse». Ela não podia admitir que falhara no casamento; o fracasso da
escolha do homem ou a incapacidade para manter a união. Crescera com a mãe a
desconsiderá-la e a responsabilizá-la pelo que de mal ia surgindo em casa. O
esforço de imaginação que a mulher necessitava para tentar compreender o que se
passava. «O meu marido era apenas ciumento, mas amava-me, talvez de maneira
excessiva». Porém, «não podes nunca enfurecê-lo», dizia para si. O medo como estratégia
implementada pelo agressor e o reflexo na vítima: «O medo era a minha lente de
aumentar sobre o mundo». Mais tarde e gradualmente deu-se o fechamento ao
mundo, já não por imposição do agressor, mas por reacção natural da vítima à opressão
e violência que sofria.
Chega a altura em que apenas sobra um
caminho: a morte – a dele ou a dela. Mas pensar em fazer não é o mesmo que
decidir fazer e ainda menos fazê-lo. O desespero atinge tal ponto que, quando ele
lhe encostou uma faca ao pescoço, a reacção dela foi a seguinte: «Quase que o
voltei a amar porque a lâmina fria oferecia-me um espaço de repouso.»
E quando as vítimas de violência
doméstica pensam que podem enganar toda a gente… Há uma enfermeira que prestou a
Clara os cuidados de que necessitou face a novas agressões do marido. Perante
as desculpas da doente, disse-lhe a técnica: «Há instituições que a podem
ajudar.» Mário é um arquitecto que Clara conheceu na Gulbenkian. Curiosa, mas
perfeitamente realista e coerente, é a forma como ela abre o livro do
sofrimento a esse estranho, livro que nem à sua irmã abrira. «Porque não o
deixa? Porque não faz queixa à polícia?» Concluiria ela mais tarde: «Aquele
homem espreitara para o fundo da minha vida, vira as feridas e os destroços.» Não
é possível enganar toda a gente.
E quando se perpectivam soluções drásticas,
as únicas capazes de resolver o assunto, surge um volte-face na história, que se
revela muito interessante pelos papeis que as personagens principais passam a
ter e a forma como o sofrimento e o ódio acumulados ao longo de anos se vão
então manifestar. Tudo descrito com mestria e sem subterfúgios. Também esta
parte do texto ajuda a perceber quanto o medo dominou a vida daquela mulher,
levando este leitor a concluir que a partir de determinada altura ela só continuou
a aceitar o sofrimento por medo e já não pelo que os outros poderiam pensar ou dizer.
Chegara o tempo em que os outros já não pesavam na cabeça da vítima, porém, o
medo pesa sempre. Nesta fase, devido ao tal volte-face, não havendo já razões
para continuar a ter medo, Clara tomou uma decisão de enorme coragem, porque,
aí sim, dadas as novas circunstâncias, teria a sua família e amigos, toda a
sociedade contra ela, mas isso era mesmo o que menos lhe importava. Queria ainda
tentar ser feliz, com todo o direito a sê-lo. Virada a página, quando tudo
parecia pertencer ao passado, foi obrigada a concluir que afinal não era assim:
«Tenho ainda muitos pesadelos. Durmo mal e reduzo os meus contactos sociais ao
mínimo, como se tivesse medo das pessoas.»
O livro termina com uma outra sequência
de acontecimentos, mas sobre eles, quero apenas dar conta das sequelas, dos
traumas que aquele longo pesadelo causara e que afinal continuava a causar. Mas
era preciso insistir e continuar a viver, ainda assim: «… A corrente do amor
deixara há muito de percorrer as minhas veias e o meu corpo não era receptivo
ao toque (…). O pânico de voltar a ter um relacionamento igual ao do meu
casamento contaminava todos os meus pensamentos.» Sequelas penosas e
prolongadas.
Não posso terminar sem deixar uma
palavra para os filhos, que a quase tudo assistem ou pressentem e por isso
também são vítimas. Ana Cristina Silva não minimizou esta importante questão,
ao introduzir na trama o filho do casal, de que já atrás falei, que como
qualquer filho nestas circunstâncias, vive os dramas quase sempre em silêncio. Restam
as reacções que o corpo e o espírito não sabem ocultar, de que não faltam
exemplos no livro. Interessantíssima é a descrição da gradual evolução das
manifestações da criança ao longo de todo o período, manifestações que perduram
após terminar o ciclo de violência e que depois – também em função da idade
destas vítimas, digo eu – o aparente apaziguar, o regresso paulatino à paz
interior e ao crescimento saudável, como se tudo o que ficou para trás não
tivesse passado de um sonho mau. Aparente porque o futuro está sempre ao virar
da próxima esquina e nunca se sabe o que nos espera.
Para concluir, direi que A Mulher Transparente é um livro de uma enorme
seriedade a todos os níveis: literário e na abordagem à temática da violência
doméstica. Está muito bem escrito, sem surpresa, diga-se. Como leitor gosto de
ser colocado nos ambientes e nas personagens. Esta é a magia da literatura e neste
livro ela não falta. Em termos de estrutura, apreciei o método da autora recusar
seguir a cronologia de forma certinha. Por vezes a trama dá dois passos à
frente, para recuar um e logo a seguir se adiantar mais três, e assim avança a
história de forma agradável e aliciante. Ana Cristina Silva fez isto muito bem,
correndo os riscos inerentes, mas de que se saiu magnificamente, conseguindo manter
este leitor sempre à coca e interessado em continuar em busca do desenrolar do mistério
que a próxima página guarda.
CA