domingo, 31 de outubro de 2010

Olhos de Água entre Outubro e Novembro

Por aqui pontifica o traço azul cinzento do mar em fundo, a chuva que vai e vem, assim como o vento, por vezes em rajada. O céu está quase sempre de chumbo, mas a espaços o sol espreita e quando assim é, o impulso impele-nos a abrir a enorme porta vidrada da sala e saltar para a espreguiçadeira do terraço. Mas, sabemos, é sol de pouca dura e não compensa o esforço da mudança neste tempo de preguiçar.

Mesmo à minha frente, o guardião de todos estes territórios, um sobreiro, talvez o ser vivo mais antigo no raio de quilómetros. Enorme árvore esta, que deixa adivinhar o quanto viu ao longo de toda sua longa vida. As bolotas espalham-se em redor, conferindo a todo o terraço o ar campestre que originalmente não tem. Daqui até ao mar são casas e mais casas, com algum verde de entremeio, em fiadas a que chamam ruas e avenidas. Quando ele nasceu tudo era campo, tudo era natural como ele. Talvez uma cabana de pescadores lá ao fundo perturbasse a paisagem... sem perturbar.

 

Estou em Olhos de Água, onde a areia do mar borbulha pela força que vem das entranhas da terra. Os mais antigos chamam olhos a esse borbulhar constante.

domingo, 24 de outubro de 2010

No Museu do Neo-Realismo é sempre a bombar

Tenho procurado dar destaque a alguns organismos públicos que, pela dinâmica que imprimem à sua programação, o merecem plenamente. Tem sido o caso da Biblioteca Camões, da rede de bibliotecas da Câmara Municipal de Lisboa, e do Museu do Neo-Realismo, em Vila Franca de Xira. Relativamente a este último, reparem na programação da última semana: - sábado passado, uma sessão de Canto Livre, de que aqui dei conta; - 5ª feira, ao fim da tarde, um magnífico recital de piano no átrio do Museu, com Samuel Lercher; - ontem, às 21h30, uma conferência com um dos grandes nomes, talvez o maior, do pensamento português da actualidade, o professor Eduardo Lourenço, que falou dos seus encontros e desencontros com Neo-Realismo. Velhinho, mas apenas no BI, porque a idade não se faz sentir no que transmite nem na forma como transmite. Esteve quase duas horas a falar dos movimentos artísticos do século XX e dos factos históricos que de alguma forma os geraram ou justificaram. Magnífico.
Para o Museu e para quem o frequenta, foi uma semana em cheio. Mas há mais: hoje é inaugurada uma exposição sobre Luís Francisco Rebelo, o dramaturgo e histórico defensor dos direitos de autor.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Domingo, de Manuel da Fonseca por Mário Viegas


Dois Grandes de Portugal: Mário Viegas e Manuel da Fonseca. O primeiro vai sendo recordado a amiúde, e ainda bem; quanto ao segundo, parece ter morrido para sempre e, como o atesta o poema que hoje trago, injustamente.

sábado, 16 de outubro de 2010

Canto Livre na era da globalização



Hoje à tarde, o anfiteatro do Museu do Neo Realismo encheu. Velhas glórias da canção de intervenção ameaçavam atacar de novo e eu, curioso, fui ver.

Já falam mais do que cantam, mas até o falar, as histórias que contam, encantam, tal como as canções, as poucas canções, que atravessaram o éter naquelas 2 horas, que foi quanto durou a sessão.
Nomes que fazem parte da história da música e até da política, porque, e isto já não desta época, tempos houve neste país em que uma e outra estavam irmanados. Manuel Freire, Afonso Dias (antigo deputado da UDP), Tino Flores, Paulo Lobo Antunes encheram o palco, toda a sala, todo o tempo, que voou.
Não se ouviu a Pedra Filosofal, mas falou-se dela; assim como se falou do ZipZip, da PIDE, do Zeca, da guerra, da França como terra de refugio e como centro produtor e difusor de cultura. Cantou-se o Corpo Ranascido Canção, Toco-te e Respiras... para logo de seguida se cantar com a mesma alegria Tous Les Garçons e Les Filles.., boleros vários, música italiana, americana... Foi pena o Chico Fanhais não poder ter estado presente, como previsto. «Está em França», disse um para outro responder, «É agora o presidente da Associação José Afonso», dando um certo ar de responsabilidade institucional pelo cargo, para logo de seguida ouvir: «lá arranjou tacho, foi o que foi». Gargalhada geral, claro. A dada altura Tino Flores demorou-se um pouco mais na afinação da viola e a crítica ideológica não tardou vinda de Manuel Freire: «Esta mania pequeno-burguesa da afinação…»
Tinha saudades disto que nunca conheci. Ver esta gente agora muito mais solta falar e cantar estas coisas de outros tempos, falando sem rancores, perdoando, quiçá para serem perdoados, é bonito, foi bonito. O tempo voou.

Crime na Biblioteca - simulacro

                                                                 A princípio é o «cadáver»

Depois o trabalho das equipas em busca de vestígios 

Concentração ao máximo - tudo conta

Depois o debate colectivo sobre o resultado do labor de todos

Finalmente, a foto colectiva

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Crime na Biblioteca - conferências sobre literatura policial

No passado dia 13, decorreu a primeira conferência sobre literatura policial, inserida na evento «Crime na Biblioteca», da Biblioteca Camões, da rede de bibliotecas municipais de Lisboa. Na ocasião, esteve presente este vosso amigo que pôde contar com uma plateia interessada e interessante, proporcionando cerca de hora e meia muito bem passada. Se tiverem curiosidade em saber como é, tenham em atenção o programa, porque, além da exposição, as conferências prosseguem com a presença de outros autores até 7 de Dezembro.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

República da Solidão

Ontem à tarde o Terreiro do Paço – gosto de lhe chamar assim – estava cheio de republicanos felizes. Junto ao Cais das Colunas, numa nesga de areia suja, dezenas de pombos pousavam e levantavam, sincronizados com o vai e vem da ondulação. Aproximou-se uma senhora na casa dos 70, 75 anos, sorriso tímido, roupa domingueira, batom e mala de mão.

- São pombos-correios? – perguntou.
- Não sei… nada percebo de pombos, mas acho que não.
- O meu marido tinha muitos. Passava horas de volta deles. Depois morreu. Foi o tabaco que o matou. Adorava fumar. Deixou-me sozinha por causa do tabaco… mas faz-me tanta falta.
E como chegou seguiu, desaparecendo por entre as gentes.

Esta história não é anti-tabagista, é anti-solidão.