Aquilino, a última entrevista

Há poucos semanas - o tempo passa depressa - tomei conhecimento do site casaldasletras, da responsabilidade de Pedro Foyos e de Maria Augusta Silva. Trata-se de dois jornalistas na reforma, felizmente para eles - digo eu - que resolveram disponibilizar parte do seu espólio profissional e isto, só por si, que poderia não ter grande importância, tem e muita. Entre outros artigos com interesse, podemos ali encontrar largas dezenas de entrevistas efectuadas ao longo dos últimos quase cinquenta anos a homens e mulheres das artes e das letras nacionais.
Li com muito gosto algumas delas, mas não resisto a fazer aqui um destaque àquela que foi a última entrevista concedida pelo mestre Aquilino Ribeiro, dois meses antes de falecer, ao jovem Pedro Foyos. Com permissão do autor e dada a sua intemporalidade, fiz copy paste das últimas duas perguntas/respostas, que se referem à juventude portuguesa. Ainda assim, não se fiquem por este pedaço, vão até ao casaldasletras.

P: Também disse numa outra ocasião que lhe custava ver a «corajosa juventude portuguesa» com «medo de viver». [Nota: alusão sibilina de Aquilino à guerra colonial iniciada dois anos antes desta entrevista].

R: A juventude portuguesa é como todas as demais europeias: generosa, cheia de seiva, inteligente, votada aos grandes destinos. Tenho porém muito medo dos mestres e dos mentores. A cada passo surge o diabo ao caminho. Um diabo de rabo pelado para que os jovens lhes hipotequem a alma. Quem os adverte do perigo? De modo geral este demónio vem embuçado, com todo o recato, em pés de lã, comedido e prudente, e fala como os antigos lentes de Coimbra: – Moço, teus pais eram assim, eram assado. Eram felizes. Fizeram esta nação grande. Amavam a Deus, etc., etc., etc. – Quais pais?, pergunto eu. Os nossos pais navegavam por debaixo das ondas? Atravessavam para o Rio, por exemplo, em nove horas? Viajavam na estratosfera? Ouviam Londres em Lisboa? Ressuscitavam duas e três vezes na mesa operatória? Para estes progressos da física e da fisiologia humana forçoso é que haja outra mentalidade. Ou que se invente. Nisto está a grande obra da pedagogia. É para essa inovação transcendental do psíquico que eu dirijo o meu convite à juventude portuguesa.

De que forma, exatamente?

[Acordaram o escritor e o jornalista que a resposta a esta pergunta, sob a forma de mensagem, seria do próprio punho de Aquilino Ribeiro. O texto, um dos últimos por si escritos, foi entregue dias depois. A extensão da mensagem era no mínimo o dobro da que se reproduz em consequência dos cortes feitos pela Censura. As chamadas “provas de granel” devolvidas ao jornal pela Censura foram confiadas a Aquilino na antevéspera da publicação e poucas semanas antes da sua morte].
Não tendo medo de viver. Tapando os ouvidos às vozes dos velhos do Restelo, todavia sem que esse repúdio provoque o desequilíbrio da sua pessoa moral, que é um edifício mais bem interessante do que os construídos pelos arquitetos à beira das ruas. Que os jovens, repito, não tenham medo de viver. Que não tenham relutância em estudar. É uma questão de persistência de princípio, como já disse, porque depois torna-se agradável singrar pelas esferas novas do saber como viajar pelas terras desconhecidas ou singrar em canoa a motor nas águas mansas de um lago. Que a juventude não tenha medo da afronta dos maus, dos medos do espírito e fuja das cocas [ardis] que todos os inimigos do progresso lhes hão de querer pôr nos olhos, que, no fundo, são hediondas como caraças de carnaval. Que amem a vida pela vida e pela beleza que encerra, nada mais que no facto de o homem se sentir um ser útil à sociedade e, porventura, ao mundo, a despeito das paredes que delimitam o nosso Portugal da Europa. E mais uma vez: estudem. Compenetrem-se de que a vida somos nós que a fazemos como um padeiro amassa o pão às mãos ambas ou um escultor à greda em que modela a estátua. Só assim a vida se saboreia no que tem de saborosos tesouros íntimos reservados.

© PEDRO FOYOS

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