Bernardo Sassetti e Carlos do Carmo no CCB

Voz e piano e duas horas de emoções, com alguns momentos verdadeiramente empolgantes, quase todos proporcionados pelo piano de Bernardo Sassetti. Passámos pelos grandes poetas e compositores portugueses das últimas décadas, mas também Léo Ferré, Jacques Brel, Joan Manuel Serrat e penso não esquecer nenhum. Um belo repertório que, com uma voz menos padronizada no fado, com aquele piano, a soltar-se constantemente das melodias, seguindo pelos vários trilhos possíveis e todos bons, poderia ter proporcionado um concerto memorável.
Verdadeiramente, sobre o palco do CCB estiveram um grande músico e uma vedeta. Compreendo que BS se sinta reconhecido por fazer dupla com CC que, goste-se ou não, é uma referência da música ligeira portuguesa, mas não devia pactuar com certos excessos, mais do que linguísticos, de atitude. De cima para baixo, de vedeta para o simples apoio à vedeta, quando o concerto valeu inteirinho, pela soma dos dois registos. Primeiro o cantor fez questão de entrar depois do pianista, condenável. Depois, fixei uma das tiradas de CC que, como é seu hábito, entre duas canções, faz campanha auto-promocional. Na ocasião disse estar maravilhado porque ao fim de 48 anos de carreira ainda enchiam o CCB por causa dele. Grosseiro, além de falso, se bem que esta segunda parte o ego poderia impedir que disso se apercebesse. Mas ficou a sabê-lo quando, já no final do espectáculo, CC pediu uma salva de palmas para o pianista e eis que a sala, cheia de facto, se levantou na mais entusiástica e prolongada ovação da noite. Depois disto, talvez para a semana, na sexta-feira, no Porto, onde o espectáculo se repetirá, CC não peça uma salva de palmas para BS ou então, tenha uma postura mais humilde e veja naquele que em Lisboa considerou o seu apoio, um seu igual. Seria bom para os dois e o público também ganhava certamente, porque não tinha de se incomodar com as arrogâncias.
Que não se veja nestas críticas francas à personalidade do cantor, uma minimização dos belos momentos a que assisti. Foram duas horas muito bem passadas e, além de recomendar às gentes do Norte que não faltem na Casa da Música, vou procurar o disco para o comprar.

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